Documentário registra a agroecologia no Assentamento Dorcelina Folador e acompanha a transformação de uma área degradada em território produtivo
Arapongas é conhecida como a Cidade dos Pássaros, contudo tem agroecologia no Assentamento Dorcelina Folador. A presença das aves aparece nos símbolos, nos nomes de ruas e na própria identidade cultural do município. Entretanto, a paisagem atual nem sempre correspondeu a essa imagem. Segundo o relato do camponês Alencar Hermes, um dos pioneiros da região, “aqui não existia passarinho, porque não existia árvore”.
A frase resume uma memória sobre um território marcado pela degradação ambiental. Além disso, ela apresenta a questão central do documentário “A Terra Sem Pássaros Ganha Asas: Memória e Agroecologia no Assentamento Dorcelina Folador”. Viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura, o projeto acompanha a trajetória de famílias que participaram da ocupação e da transformação de uma área antes associada à produção de sementes e à monocultura.
O filme terá formato de média-metragem, com duração prevista entre 30 e 45 minutos. A produção reunirá depoimentos de pioneiros, registros do cotidiano, informações sobre a produção agroecológica e imagens da relação entre o assentamento e a cidade de Arapongas.
Mais do que contar uma história de superação, o documentário investigará como memória, organização coletiva, políticas públicas e produção de alimentos se relacionam na construção de um território. Dessa forma, a obra pretende aproximar o público de uma experiência que envolve campo, cidade, educação, alimentação e preservação ambiental.
Da terra degradada à produção de alimentos
A história do Assentamento Dorcelina Folador envolve a trajetória de mais de 130 famílias, conforme as informações previstas no projeto. A narrativa partirá das condições encontradas no início da ocupação. Em seguida, acompanhará as etapas de construção da vida no assentamento.
O roteiro abordará:
- a chegada das famílias;
- a permanência no território;
- a organização das unidades produtivas;
- a recuperação de áreas degradadas;
- a adoção de práticas agroecológicas;
- a formação de redes de cooperação;
- a comercialização dos alimentos;
- a relação com escolas e políticas públicas.
A transformação não ocorreu de forma simples ou linear. Por isso, o filme também mostrará as dificuldades enfrentadas pelas famílias. Entre elas, estão a falta de infraestrutura, os desafios de produção, as limitações de comercialização e a necessidade de acesso a políticas públicas.
Além disso, o documentário tratará da permanência dos jovens no campo. A sucessão rural representa uma preocupação para muitas comunidades. Afinal, a continuidade da produção depende também da participação das novas gerações.
A agroecologia aparecerá como uma prática de cultivo e como uma forma de organização social. O filme observará como as famílias usam seus conhecimentos, reorganizam o trabalho e estabelecem novas relações com a terra. Assim, a produção agroecológica não será apresentada apenas como uma técnica. Ela também será relacionada à autonomia, à cooperação e à soberania alimentar.
Memória dos pioneiros ajuda a reconstruir a história
Os relatos dos pioneiros terão papel central na produção. Essas pessoas participaram de momentos decisivos da formação do assentamento. Seus depoimentos poderão revelar acontecimentos que nem sempre aparecem em documentos oficiais.
A memória oral, entretanto, não será tratada como uma versão única ou definitiva. A equipe deverá confrontar os relatos com documentos, registros institucionais e outras fontes disponíveis. Esse procedimento ajudará a preservar a força das experiências individuais sem abandonar o rigor histórico.
Além disso, as entrevistas poderão revelar diferentes interpretações sobre os mesmos acontecimentos. Esse aspecto dará mais profundidade à narrativa. Afinal, os processos de ocupação, organização e permanência envolvem conflitos, escolhas e pontos de vista diversos.
O documentário também pretende registrar o cotidiano. As imagens mostrarão o trabalho nas propriedades, a preparação dos alimentos, as reuniões, a circulação das famílias e os momentos de convivência. Com isso, o público poderá conhecer o assentamento para além das explicações formais.
Dorcelina Folador entre a poesia e a luta social
O nome do assentamento homenageia Dorcelina Folador, liderança social e poeta popular. Essa referência aproxima a luta pela terra da produção cultural e da memória comunitária.
Por esse motivo, a equipe pretende investigar poemas, textos, registros e testemunhos relacionados à trajetória de Dorcelina. A pesquisa deverá confirmar a existência desses materiais e avaliar sua importância histórica. O filme, portanto, evitará construir uma imagem idealizada da personagem.
A intenção é compreender como suas diferentes dimensões se relacionam. Dorcelina foi lembrada por sua liderança, por sua atuação política e por sua sensibilidade artística. O documentário buscará apresentar essas características com equilíbrio e responsabilidade.
A expressão “ganha asas”, presente no título, estabelece várias relações. Primeiro, dialoga com a identidade de Arapongas. Depois, representa a recuperação da vida em um território que já enfrentou forte degradação. Por fim, sugere que a memória do assentamento pode alcançar novos públicos.
A COPRAN conecta o campo às escolas
A COPRAN será outro eixo importante do documentário. A cooperativa organiza parte da produção das famílias e aproxima os agricultores de instituições públicas de ensino.
O roteiro acompanhará o percurso dos alimentos em diferentes etapas:
terra → plantio → colheita → seleção → embalagem → transporte → escola → refeição.
Cada fase apresenta personagens e desafios próprios. As mulheres que trabalham na seleção, os jovens que participam das atividades, os motoristas, as merendeiras e os nutricionistas formam uma rede de trabalho essencial.
A produção também mostrará como os alimentos chegam às escolas. Durante essa etapa, a equipe deverá confirmar a quantidade de instituições atendidas e os dados relativos à distribuição. A apuração garantirá mais precisão ao conteúdo.
A presença dos alimentos do assentamento na merenda escolar revela uma conexão direta entre campo e cidade. As famílias produzem os alimentos. A cooperativa organiza parte do processo. As escolas recebem os produtos. Por fim, os estudantes consom refeições preparadas com ingredientes da agricultura familiar.
Esse caminho ajuda a explicar o conceito de soberania alimentar. A sociedade não depende apenas da quantidade de alimentos disponíveis. Ela também precisa discutir quem produz, como produz e quais relações econôm sustentam o abastecimento.
O que a cidade sabe sobre o assentamento?
O documentário também realizará entrevistas de rua em Arapongas. A equipe perguntará aos moradores o que eles sabem sobre o Assentamento Dorcelina Folador, sua história e sua produção.
A pesquisa não pretende expor ou ridicularizar a população urbana. Pelo contrário, ela buscará registrar uma possível distância entre o cotidiano da cidade e a realidade do campo.
Muitas pessoas vivem no mesmo município, mas desconhecem as experiências de diferentes comunidades. Nesse sentido, as entrevistas poderão revelar o nível de aproximação entre os moradores de Arapongas e as famílias do assentamento.
O projeto ainda prevê conversas com autoridades municipais, pesquisadores, educadores e representantes de organizações sociais. Essas entrevistas ampliarão o debate sobre reforma agrária, agroecologia, alimentação escolar e políticas públicas.
Além disso, a aproximação entre campo e cidade poderá fortalecer o diálogo sobre o futuro da produção de alimentos. As decisões relacionadas à agricultura afetam toda a população. Portanto, esse debate não deve ficar restrito aos espaços rurais.
Um documentário que apresenta conquistas e desafios
A produção não pretende esconder os problemas do assentamento. O roteiro deverá abordar questões de infraestrutura, comercialização, dependência de políticas públicas e dificuldades ambientais.
Também haverá espaço para discutir a permanência dos jovens, as diferenças entre as famílias e as tensões relacionadas à memória histórica. Esses temas ajudam a evitar uma narrativa superficial.
A transformação de uma área degradada em um território produtivo não elimina todos os conflitos. As famílias continuam enfrentando dificuldades. Elas precisam planejar, negociar, corrigir erros e buscar novas soluções.
Essa abordagem dará mais credibilidade ao filme. Um documentário que apresenta apenas conquistas pode perder sua força educativa. Por outro lado, uma narrativa que reconhece limites e contradições oferece ao público uma visão mais próxima da realidade.
Doze meses para acompanhar diferentes ciclos
O projeto prevê um cronograma de 12 meses, com início após a assinatura do Termo de Execução Cultural. A equipe utilizará esse período para realizar pesquisa histórica, pré-entrevistas e gravações.
O cronograma incluirá:
- levantamento de documentos;
- entrevistas com pioneiros;
- pesquisa sobre Dorcelina Folador;
- registros do cotidiano das famílias;
- acompanhamento da produção agrícola;
- gravações na COPRAN;
- visitas às escolas;
- entrevistas de rua;
- transcrição dos depoimentos;
- montagem e finalização;
- legendagem e preparação para exibição.
O período ampliado permitirá acompanhar diferentes momentos do ciclo agrícola. Dessa forma, o filme não dependerá de registros concentrados em poucos dias.
Sob a direção de Tiago Prado, jornalista com especialização em produção audiovisual e mais de 20 anos de experiência profissional, o projeto seguirá princípios de rigor histórico, respeito à identidade local e transparência metodológica.
Um registro para as próximas gerações
Ao final, “A Terra Sem Pássaros Ganha Asas” pretende registrar a capacidade de uma comunidade transformar um território e criar alternativas de produção e abastecimento.
A experiência do Assentamento Dorcelina Folador será apresentada por meio das vozes de seus moradores, das instituições envolvidas e da população de Arapongas. O documentário reunirá memória, trabalho, agroecologia, cooperação e educação.
A obra deverá ser exibida gratuitamente em escolas e espaços comunitários. Os cine-debates poderão reunir produtores rurais, educadores, pesquisadores, realizadores audiovisuais e moradores da cidade. Além disso, o projeto prevê a disponibilização do filme em plataformas digitais abertas.
Mais do que reconstruir o passado, o documentário estimulará uma reflexão sobre o futuro do campo. A história do assentamento mostra que recuperação ambiental, produção de alimentos e preservação da memória podem fazer parte do mesmo processo.
Quando a terra deixa de servir apenas à mercadoria e passa a sustentar relações, alimentos e formas de vida, a transformação ganha sentido coletivo. Nesse percurso, a agroecologia no Assentamento Dorcelina Folador deixa de ser apenas um tema de documentário. Ela se torna uma experiência concreta de organização, resistência e construção de futuro.
Projeto Cultural “A Terra Sem Pássaros Ganha Asas” | Termo de Execução Cultural nº 015/2026 | Realização: Tiago Prado | Viabilizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura e Secretaria da Cultura, Lazer e Eventos (SECLE) de Arapongas.






