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Agroecologia em Arapongas recupera terra e produz alimento

Agricultores do Assentamento Dorcelina Folador cultivam alimentos em área de produção agroecológica em Arapongas.

No Assentamento Dorcelina Folador, em Arapongas, a agroecologia recuperou o solo, protegeu nascentes e passou a produzir alimentos para escolas públicas

Quem percorre as ruas de Arapongas encontra aves espalhadas pelo mapa da cidade. Desta forma, elas aparecem nos nomes de ruas, avenidas e bairros, como se o município carregasse no próprio endereço uma vocação para o voo.

Todavia, a poucos quilômetros do asfalto, porém, o campo já contou uma história bem diferente.

Até o fim dos anos 1990, a antiga Fazenda “Sementes Balu” apresentava um cenário marcado pela monocultura e pelo desgaste do solo. A produção intensa havia reduzido a vegetação, comprometido a diversidade e deixado a terra cansada.

O agricultor Alencar Hermes, um dos pioneiros que chegaram à área em 1998, resumiu aquele período em uma frase curta e definitiva:

“Aqui não existia passarinho, porque não existia árvore.”

Contudo, a frase explica mais do que uma paisagem. Onde faltam árvores, também desaparecem a sombra, os ninhos, a umidade e a vida. A terra perde o equilíbrio e passa a responder apenas ao calendário da produção.

Do solo degradado à produção agroecológica

Quase três décadas depois, o cenário mudou. A área que deu origem ao Assentamento Dorcelina Folador passou a produzir hortaliças, leite, feijão e frutas sem o uso de agrotóxicos.

Ocorre que a transformação não aconteceu de uma hora para outra. Assim sendo, as famílias enfrentaram o trabalho pesado, recuperaram nascentes, reorganizaram o uso da terra e construíram, pouco a pouco, uma alternativa de produção baseada na agroecologia.

Nesse processo, a Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária União Camponesa, a COPRAN, assumiu uma função central. A cooperativa ajudou a organizar a produção, a comercialização e a distribuição dos alimentos cultivados pelas famílias assentadas.

Assim, parte do que nasce no Assentamento Dorcelina Folador chega às escolas públicas de dezenas de municípios do Paraná. O alimento servido na merenda escolar percorre um caminho que começa no campo, passa pelo trabalho coletivo e termina no prato de crianças e adolescentes.

Portanto, não é apenas uma discussão sobre agricultura. É também uma conversa sobre saúde, educação, meio ambiente e economia local.

Uma memória que continua produzindo

O assentamento recebeu o nome de Dorcelina Folador, liderança popular e poeta que transformou a palavra e a organização comunitária em instrumentos de defesa da vida no campo.

Sua memória permanece nas placas, nas histórias dos moradores e na forma como a comunidade cuida do território. Mais do que homenagear uma trajetória, o nome representa um modo de compreender a terra: como espaço de trabalho, dignidade e futuro.

Um documentário para registrar essa história

Para preservar essa trajetória, está em produção o documentário de média-metragem A Terra Sem Pássaros Ganha Asas.

O projeto foi selecionado pelo edital Tangará em Cena, dentro da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de Arapongas.

A produção reúne memórias dos pioneiros e acompanha a rotina das famílias e da COPRAN. Ao registrar a recuperação da terra, o documentário mostra que a reforma agrária não vive apenas em discursos ou debates de gabinete.

Em Arapongas, ela também aparece na nascente recuperada, na árvore que voltou a crescer, no pássaro que retornou e no alimento que chega à escola.

No fim das contas, a terra que um dia ficou sem canto encontrou outra maneira de falar: alimentando a cidade.

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