Há um incômodo crescente — inclusive em setores que deveriam estar do mesmo lado. A queixa é sobre a forma como temos criticado o vereador Paulo Grassano. Dizem que exageramos. Dizem que há confronto demais. Alguns chegam a falar em “irracionalidade”. É preciso, portanto, ser direto: o problema nunca foi a forma. O problema é quem está sendo criticado — e o que isso expõe.
Onde tudo começou
Nossa posição não nasce do nada. Ela começa no primeiro discurso do vereador, ainda antes do início formal da legislatura.
Naquele momento, discutia-se o aumento de cargos na Câmara. E o que fez o nobre edil, Paulo Grassano? Subiu à tribuna para defender o Estado mínimo. Ou seja: menos serviço público, menos estrutura, menos proteção para quem depende do poder do Estado para sobreviver.
O tempo, porém, tratou de revelar a incoerência. Pouco depois, o mesmo vereador voltou à tribuna — dessa vez para defender a prioridade ao Plano Safra.
Ou seja: Estado mínimo para o povo. Estado máximo para o agronegócio.
E financiado com dinheiro público — exatamente o mesmo que se nega quando o assunto é a vida da população.
Isso não é contradição acidental. É uma escolha política deliberada.
A incoerência não é detalhe — é método
A partir dali, passamos a fazer o que o jornalismo comprometido deve fazer: confrontar o poder com fatos.
E não demorou para as contradições se acumularem. Estamos falando de um herdeiro milionário que:
- Declara patrimônio superior a R$ 1 milhão;
- Nunca dependeu de transporte público;
- Nunca precisou do Estado para sobreviver;
- Nunca viveu a realidade da periferia que agora legisla.
No entanto, esse mesmo vereador ocupa comissões estratégicas de Educação, Assistência Social e Direitos Humanos.
Como alguém que já expressou desprezo pela realidade popular pode deliberar sobre políticas voltadas a essa mesma população? Isso não é apenas incoerência. É um problema político concreto.
O ponto de ruptura: irregularidades e uma denúncia formal
Durante meses, além da crítica política, denunciamos indícios objetivos de irregularidades. A questão é simples: contratos entre empresa ligada ao vereador e o município.
Isso não é debate ideológico. Isso é Lei Orgânica do Município.
Depois de cerca de nove meses de insistência, a situação se tornou insustentável. E o que aconteceu?
- A denúncia foi formalizada;
- Foi aceita pela presidência da Câmara;
- Foi lida em plenário;
- E resultou na abertura de uma Comissão Processante.
Portanto, não era exagero. Era fato.
A sessão que revelou tudo: “Paulo Grassano é de família”
Mas foi durante a votação da admissibilidade que o padrão ficou mais claro — e mais perturbador.
No momento em que a Câmara deveria analisar os fatos, o foco se deslocou. A denunciante — que exerceu um direito legal e teve sua denúncia aceita institucionalmente — foi atacada, exposta e transformada em alvo.
A inversão foi escancarada: quem denunciou virou culpada — e quem foi denunciado virou vítima.
Além disso, tentaram responsabilizá-la pelo rompimento de contrato, pela falta de ambulâncias e pelo impacto na população. Trata-se de um mecanismo clássico de inversão de culpa.
E então veio a frase que resume tudo:
“O Paulo é de família, não merece passar por isso.”
Uma pergunta simples, porém necessária: a denunciante não é de família?
Quem é elegível e quais são os critérios para o acesso à proteção institucional oferecida nesta cidade?
Quais grupos ou indivíduos se encontram em situação de vulnerabilidade e risco que justifique uma intervenção protetiva?
Em que contextos e para quais indivíduos ou grupos deve-se aplicar o benefício da dúvida, especialmente em processos de avaliação e concessão de auxílio?
A clareza nessas definições é essencial para otimizar os recursos, assegurar a equidade no acesso aos serviços e fortalecer a rede de apoio social do município.
A crítica ao “tom” é seletiva — e isso precisa ser dito
É aqui que entra o verdadeiro debate.
Se fosse outro vereador, com 0,05% dessas irregularidades, teria recebido o mesmo tratamento?
Mais ainda:
- Haveria essa preocupação com os adjetivos?
- Haveria esse zelo com a “forma”?
- Haveria essa paciência institucional?
- Ou já estaria politicamente destruído?
E esse mesmo cuidado seria aplicado a vereadores como Arnaldo do Povo, Cecéu ou Levi do Handebol?
A resposta é evidente.
O que está em jogo — mesmo que ninguém admita
O caso Grassano revela um padrão:
- Proteção automática para quem vem de família tradicional;
- Tolerância ampliada para quem tem patrimônio;
- Blindagem institucional para quem representa a elite.
Esse padrão opera no silêncio. Mas opera com eficiência.
E o resultado é sempre o mesmo: uns podem tudo, outros não podem nada.
Coragem de dizer o nome: Paulo Grassano
Não se trata de ódio. Não se trata de irracionalidade.
Trata-se de coragem política.
A verdadeira coragem reside em expor as incoerências em nomear os privilégios e em desafiar aqueles que sempre estiveram sob um manto de proteção.
O incômodo é o sinal
Se há desconforto, é porque algo está funcionando.
O problema nunca foi como dissemos.
Foi o que dissemos.
E continuaremos dizendo.






