Waldyr Pugliesi: a velha mentira que insiste política brasileira

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Há histórias que a gente ouve na infância e só entende na vida adulta. A morte de Waldyr Pugliesi trouxe uma delas de volta — não como saudade, mas como alerta político.

Waldyr Pugliesi atravessa a história do Paraná e se entrelaça com a formação política e social de Arapongas — a nossa cidade dos passarinhos. Sua biografia é extensa, respeitável, incontornável. Mas não é sobre datas e mandatos que importa falar agora.

É sobre o presente.

É sobre como o passado insiste em não passar.

E, principalmente, sobre como as mesmas mentiras continuam sendo recicladas com impressionante eficiência.

O lenço que nunca foi devolvido

Minha mãe, Dona Ruth, cresceu num tempo em que política era coisa de sítio, de vizinhança, de conversa na beira do fogão a lenha. Ela lembrava — com a precisão de quem viveu — de quando figuras ligadas à ARENA iam até o sítio e diziam pro Vô Prado, com ar de preocupação pastoral:

“Irmão Sebastião, tome cuidado com o Waldyr. Ele é comunista… e o senhor tem filhas mulheres.”

Era isso.

A política reduzida ao medo.
O debate substituído pela mentira.
A divergência transformada em ameaça moral.

Aquele Lencinho, canção de Luiz Ayrão,  fala de algo que vai embora e deixa saudade — mas que, no fundo, nunca pertenceu a quem fingia guardar. O “cuidado” da ARENA era esse lenço: um gesto falso, usado para esconder dominação.

Meu avô, infelizmente, por azar, caiu.

A mentira não morreu — trocou de roupa

Décadas depois, o roteiro continua o mesmo. Apenas com novos intérpretes.

Hoje não é mais a ARENA. São seus herdeiros. Filhotes ideológicos — alguns mais sofisticados, outros nem tanto, mas todos igualmente comprometidos com a mesma lógica.

A retórica, contudo, permanece intacta:

“A esquerda quer destruir a família.”

“A esquerda quer acabar com os costumes.”

“A esquerda quer doutrinar crianças.”

Quem acompanha o plenário da Câmara de Vereadores de Arapongas já ouviu isso mais de uma vez. Não como argumento, mas como arma. Não como debate, mas como espetáculo de pânico moral.

E é preciso dizer com clareza:

Não é ignorância.
É método.

As mentiras que cercaram Waldyr Pugliesi ontem são as mesmas que tentam moldar o debate público hoje.

Waldyr Pugliesi e a política que enfrentava de frente

É nesse ponto que Waldyr Pugliesi deixa de ser memória e volta a ser referência.

Ele representava uma política de enfrentamento real: firme, direta, baseada em ideias e em projeto de sociedade. O chamado “MDB velho de guerra” não fugia do conflito — mas também não se escondia atrás de mentiras grotescas para vencê-lo.

Essa é a diferença. E é uma diferença brutal.

Waldyr compreendeu que Arapongas não sobreviveria apenas do café. Estruturou distritos industriais, lançou bases para o polo moveleiro e governou com o Estado como indutor do desenvolvimento — organizando o crescimento onde o mercado não chegava sozinho.

Enquanto isso, recusava a ARENA e seus métodos.

Não é pouca coisa. Nunca foi.

Canta, Dona Ruth. Canta, minha gente.

Minha mãe veio desse ambiente. Cresceu dentro de um sistema onde o voto não era consciência — era herança. Era quase propriedade do patrão. Era cabresto, literalmente.

Mas ela rompeu.

E rompeu de forma simples, direta, quase instintiva:

“Por que eu vou defender político de patrão? Qual a lógica disso?”

Essa pergunta desmonta tudo.

Ela quebra a engrenagem que sustenta a dominação simbólica — aquela que faz o trabalhador defender quem o explora.

Portanto, é aqui que se encaixa Canta, Canta, Minha Gente, de Martinho da Vila. Não como nostalgia, mas como afirmação. Cantar, naquele contexto, é resistir. É afirmar que o povo tem voz, tem história e tem dignidade.

Dona Ruth cantou à sua maneira.

E rompeu.

O que fica de Waldyr Pugliesi

A lembrança de Waldyr Pugliesi, nos dias atuais, transcende a mera nostalgia. Representa um genuíno ato político.

Trata-se de recordar que existiram — e continuam a existir — indivíduos que ousam confrontar o poder, sem jamais se valerem do medo, da falácia ou da manipulação ética. É, sobretudo, a reafirmação de que a política pode ser construída com bravura, fundamentada em um projeto sólido e pautada por um compromisso social inabalável.

Sua morte marca o fim de um ciclo. O fim de uma forma de fazer política no interior do Paraná onde ainda havia disputa de projeto — e não apenas gestão do que já está dado.

Mas as mentiras continuam.

Adaptadas. Reembaladas. Amplificadas.

Cabe a nós reconhecê-las.
Enfrentá-las.
E impedir que continuem dominando o debate público.

No fim das contas, Waldyr Pugliesi não é apenas memória.

É um lembrete incômodo de que a luta por justiça social e por democracia de verdade nunca foi — e nunca será — um caminho confortável.

Mas é o único caminho possível para quem se recusa a viver de joelhos diante da mentira — ou pior, repeti-la como se fosse verdade.

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