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Racismo em Arapongas: senzala e escudo moral

Imagem de destaque em arte conceitual minimalista, simbolizando o debate político, o racismo estrutural e a vitimização política no contexto do PL 31/2025

A RPC mostrou o que O Trovão já havia documentado. O ponto central, porém, ficou fora da TV por um ano.

Quando a RPC Londrina levou o caso ao noticiário, a cidade já possuía contexto. A reportagem confirmou o que O Trovão havia registrado anteriormente: a “senzala” e o “escudo moral” revelam o racismo estrutural e institucional em Arapongas. Nesse cenário, houve a fala de Arnaldo do Povo, a reação tardia da Câmara e o esforço nítido para reduzir o episódio a uma mera polêmica.

Além disso, a cobertura só ganhou força porque existiu documentação, cobrança pública e repetição do tema nas redes. Portanto, o caso não surgiu de forma espontânea no noticiário; a pressão acumulada o empurrou para a agenda pública.

Racismo estrutural em Arapongas: o que a cobertura exibiu

A reportagem cumpriu o papel de registrar o fato. Contudo, ela chegou depois da fala e da pressão que obrigou o plenário a se mover. Nesse sentido, os fatos mostram que a instituição não agiu por iniciativa própria.

A declaração surgiu em 6 de abril, mas a nota de repúdio veio apenas em 13 de abril. Entre os dois momentos, a pressão externa, pública e constante moldou o desfecho. Dessa forma, os registros, os vídeos e a cobrança direta ao vereador Cecéu tornaram o episódio incontornável dentro do plenário. Sem esse monitoramento, o silêncio protocolar da Casa teria consumido a fala, como ocorre com tantas outras.

Nos vídeos de desculpa publicados após a repercussão, Arnaldo aparece com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao fundo. Ele aponta para si, aponta para a santa e, consequentemente, tenta deslocar a discussão para o campo da fé.

Escudo da fé

Na prática, esse gesto funciona como um escudo moral. O parlamentar troca a responsabilidade política pela devoção religiosa. Assim, a imagem sagrada ocupa o lugar da resposta que ele deveria dar sobre a fala racista.

Entretanto, esse movimento possui um nome claro na comunicação política: o uso da fé como álibi moral. Essa estratégia transfere o julgamento do campo ético e jurídico para o campo da devoção. É como se a padroeira do Brasil pudesse substituir o letramento racial que falta ao parlamentar.

Por isso, a leitura correta não é “polêmica”, mas sim “padrão”. E padrão, neste caso, significa a repetição de omissões, seletividade e tolerância desigual dentro da própria Câmara. Desta forma, enquanto a RPC enquadrou o fato como polêmica, O Trovão o enquadra como padrão. Ademais, é exatamente esse padrão que precisamos expor.

Seletividade no plenário de Arapongas

Em 12 de maio de 2025, durante sessão oficial da Câmara de Arapongas, o vereador Paulo Grassano (PP) proferiu a seguinte frase para justificar que não era racista: Pra mostrar que eu não sou racista, eu tenho até um assessor que é preto.

Todavia, não houve nota de repúdio. Além disso, o plenário não demonstrou nenhuma indignação coletiva. Nenhum parlamentar apresentou requerimento. A base governista, que em abril de 2026 se mobilizou para votar contra Arnaldo, permaneceu em silêncio absoluto em maio de 2025.

A diferença entre um e outro

Agora, observe os dados para comparação direta: Arnaldo do Povo é preto e ex-cortador de cana. Paulo Grassano é branco e pertence a uma família com inserção política consolidada. Enquanto Arnaldo usou a palavra “senzala” para descrever um território, Grassano usou o corpo de um assessor negro como prova de inocência racial.

Diante disso, a pergunta que a Câmara de Arapongas precisa responder é direta: o que define quem merece nota de repúdio — o conteúdo da fala ou o perfil de quem fala? Afinal, os dois episódios envolvem racismo, mas apenas um gerou reação institucional.

Tokenismo, território e memória negra

A sociologia já nomeou os dois mecanismos em operação. A fala de Grassano exemplifica o tokenismo: a prática de usar uma pessoa negra como prova moral, transformando-a em ferramenta de defesa do opressor. Nesse caso, o vereador não citou o assessor por sua competência, mas pela cor da pele.

Por outro lado, a fala de Arnaldo opera pela estigmatização territorial. Ao chamar o Palmares de senzala, o vereador retira dos moradores a condição de cidadãos. Vale ressaltar a ironia histórica: Palmares foi o maior quilombo da América Latina e representa o oposto da senzala. Logo, usar esse termo apaga a memória de resistência do lugar.

Em suma, a escolha da palavra atinge moradores, o território e o simbolismo político de toda uma comunidade.

O vocabulário que piora o dano

Palavras importam. Quando a Câmara naturaliza termos coloniais, ela reforça hierarquias antigas. Embora Arnaldo seja preto, isso não o isenta de reproduzir o racismo estrutural, que se manifesta independentemente de quem profere a fala. Contudo, o fato de Arnaldo ter sido repudiado enquanto Grassano saiu ileso revela o racismo institucional.

Alguns vereadores chamaram os observadores de “fazedores de polêmica” e “penduricalhos”. Certamente, o desconforto deles é compreensível, mas esse sentimento deveria se voltar contra as falas racistas, não contra quem as documenta.

O que a Câmara de Arapongas precisa corrigir

Se a instituição busca coerência, precisa agir com o mesmo critério em casos semelhantes. Também é necessário abandonar o hábito de reagir apenas sob pressão externa. Afinal, combater o racismo exige consistência e responsabilidade, não apenas administração de imagem.

Em conclusão, uma Casa que seleciona suas indignações por conveniência política não exerce compromisso ético. Pelo contrário, ela apenas administra o racismo. O problema central reside na estrutura que escolhe quando se indignar, transformando o repúdio em apenas mais um tipo de silêncio.

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