De “tenho um assessor que é preto” a “o Palmares é a senzala” — dois vereadores, em menos de um ano e uma Câmara que segue em silêncio enquanto o racismo toma a tribuna.
O racismo estrutural na Câmara de Arapongas não chegou de repente. Ele foi se instalando aos poucos — com naturalidade, com microfone aberto e, pior, sem que ninguém reagisse. Há dois registros que precisam ser lidos juntos para que a gravidade do padrão fique clara.
Em 12 de maio de 2025, o vereador Paulo Grassano (PP) tentou provar que não era racista com a seguinte frase: “Pra mostrar que eu não sou racista, eu tenho até um assessor que é preto.” Um ano depois, em 6 de abril de 2026, o vereador Arnaldo do Povo (AVANTE) descreveu a Zona Sul de Arapongas com a seguinte afirmação: “O Palmares é a senzala na concepção da cidade.“
Dois vereadores. Dois momentos diferentes. Uma mesma lógica colonial.
A lógica do “eu tenho um amigo preto”
Grassano usou seu assessor como escudo. Não como colega, não como profissional competente — mas como prova. Como se a presença de uma pessoa negra no gabinete fosse um certificado de inocência racial. Esse mecanismo tem nome: tokenismo. Significa usar alguém de um grupo minorizado como objeto de defesa, não como sujeito de direitos.
Traduzindo para a linguagem direta: é o mesmo que dizer “eu não odeio cachorros, tenho um em casa”. O cachorro, nesse caso, não escolheu ser prova de nada.
Senzala não é figura de linguagem
Arnaldo do Povo, por sua vez, usou uma palavra que carrega séculos de dor histórica para descrever um bairro de trabalhadores. Portanto, é preciso ser direto: senzala não significa periferia. Senzala significa cativeiro, desumanização e violência racial sistemática.
Além disso, há uma ironia histórica que torna a fala ainda mais grave: o bairro se chama Palmares — nome do maior quilombo da América Latina, símbolo máximo de resistência contra a senzala. Ao chamar o Palmares de senzala, o vereador apagou, em uma frase, toda essa memória de luta.
Por que isso continua acontecendo?
Porque a Câmara de Arapongas silencia. Em 2025, ninguém pediu explicações formais a Grassano. Em 2026, ninguém interrompeu Arnaldo. Consequentemente, o silêncio institucional funciona como autorização. Ele diz, sem palavras: pode continuar.
O racismo estrutural na Câmara de Arapongas não precisa de intenção malvada para existir. Ele se sustenta exatamente na naturalização — na ideia de que “foi só uma fala”, de que “ele não quis dizer assim”, de que “há coisas mais importantes para discutir”.
Não há. Dignidade não tem pauta secundária.





