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Câmara de Arapongas e o Racismo Estrutural

Imagem de destaque em arte conceitual minimalista, simbolizando o debate político, o racismo estrutural e a vitimização política no contexto do PL 31/2025

De “tenho um assessor que é preto” a “o Palmares é a senzala” — dois vereadores, em menos de um ano e uma Câmara que segue em silêncio enquanto o racismo toma a tribuna.

racismo estrutural na Câmara de Arapongas não chegou de repente. Ele foi se instalando aos poucos — com naturalidade, com microfone aberto e, pior, sem que ninguém reagisse. Há dois registros que precisam ser lidos juntos para que a gravidade do padrão fique clara.

Em 12 de maio de 2025, o vereador Paulo Grassano (PP) tentou provar que não era racista com a seguinte frase: Pra mostrar que eu não sou racista, eu tenho até um assessor que é preto.” Um ano depois, em 6 de abril de 2026, o vereador Arnaldo do Povo (AVANTE) descreveu a Zona Sul de Arapongas com a seguinte afirmação: O Palmares é a senzala na concepção da cidade.

Dois vereadores. Dois momentos diferentes. Uma mesma lógica colonial.

A lógica do “eu tenho um amigo preto”

Grassano usou seu assessor como escudo. Não como colega, não como profissional competente — mas como prova. Como se a presença de uma pessoa negra no gabinete fosse um certificado de inocência racial. Esse mecanismo tem nome: tokenismo. Significa usar alguém de um grupo minorizado como objeto de defesa, não como sujeito de direitos.

Traduzindo para a linguagem direta: é o mesmo que dizer “eu não odeio cachorros, tenho um em casa”. O cachorro, nesse caso, não escolheu ser prova de nada.

Senzala não é figura de linguagem

Arnaldo do Povo, por sua vez, usou uma palavra que carrega séculos de dor histórica para descrever um bairro de trabalhadores. Portanto, é preciso ser direto: senzala não significa periferia. Senzala significa cativeiro, desumanização e violência racial sistemática.

Além disso, há uma ironia histórica que torna a fala ainda mais grave: o bairro se chama Palmares — nome do maior quilombo da América Latina, símbolo máximo de resistência contra a senzala. Ao chamar o Palmares de senzala, o vereador apagou, em uma frase, toda essa memória de luta.

Por que isso continua acontecendo?

Porque a Câmara de Arapongas silencia. Em 2025, ninguém pediu explicações formais a Grassano. Em 2026, ninguém interrompeu Arnaldo. Consequentemente, o silêncio institucional funciona como autorização. Ele diz, sem palavras: pode continuar.

racismo estrutural na Câmara de Arapongas não precisa de intenção malvada para existir. Ele se sustenta exatamente na naturalização — na ideia de que “foi só uma fala”, de que “ele não quis dizer assim”, de que “há coisas mais importantes para discutir”.

Não há. Dignidade não tem pauta secundária.

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