Nesta semana, a Câmara Municipal de Arapongas, Norte do Paraná, aprovou por unanimidade uma moção de apoio a Frei Gilson, sacerdote apresentado como “líder religioso” e “defensor da fé”. O documento, assinado pelos 15 (quinze) nobres edis, exalta sua atuação nas redes sociais, onde reúne milhões de seguidores com transmissões de orações e músicas. No entanto, por trás da retórica de “renovação espiritual” e “resistência às adversidades”, esconde-se um discurso perigoso: misógino, anticientífico, antirracista e promotor de ódio contra religiões de matriz africana.
Quem é Frei Gilson?
Gilson da Silva Pupo Azevedo, conhecido como Frei Gilson, tornou-se viral nas redes por pregações que misturam misticismo católico e propaganda política reacionária. Ordenado em 2013, ele usa plataformas como YouTube e Instagram para atacar movimentos sociais, defender a submissão feminina e associar o comunismo a “obras do demônio”. Seu canal, “Som do Monte”, é um palco para discursos que distorcem a fé em prol de uma agenda autoritária.
Em março de 2025, a Revista Fórum revelou um vídeo em que o frei classifica o movimento antirracista como “mimimi” e acusa ativistas de “dividir a sociedade”. Já a BBC destacou seu apoio a teorias conspiratórias, como a ideia de que “globalistas” querem destruir a família tradicional. Para completar, a CartaCapital expôs sermões em que ele defende que “a mulher deve obedecer ao marido” e que religiões como umbanda e candomblé são “práticas demoníacas”.
O Discurso que Divide (e Ameaça)
A moção da Câmara de Arapongas ignora solenemente esses fatos. Enquanto os vereadores celebram Frei Gilson como “exemplo de fé autêntica”, ele dissemina intolerância. Suas pregações contra religiões afro-brasileiras não são mera opinião religiosa: são ataques a culturas ancestralmente marginalizadas. No Brasil, onde terreiros são alvo constante de violência, legitimar esse discurso é compactuar com o racismo estrutural.
Quanto às mulheres, o frei defende um modelo patriarcal que as reduz a “servas do lar”. Em pleno 2025, isso não é apenas retrógrado — é uma ameaça à autonomia feminina. Seus seguidores, muitos jovens, são incentivados a rejeitar debates sobre equidade de gênero, rotulando-os como “doutrinação esquerdista”.
Já o anticomunismo de Frei Gilson é tão raso quanto perigoso. Ele reduz questões complexas — como desigualdade social — a um “combate ao marxismo cultural”, frase de efeito que só serve para alimentar a polarização. Enquanto a Câmara de Arapongas gasta tempo com moções vazias, faltam debates sobre saúde, educação e transporte no município.
Por Que a Câmara de Arapongas Apoia Isso?
A resposta está no que se transformou a casa legislativa: “Câmara Federal de Vereadores”. O motivo? Seus membros preferem pautas nacionais — muitas vezes alinhadas ao bolsonarismo — a resolver problemas reais da cidade. A moção a Frei Gilson é sintomática: em vez de fiscalizar o Executivo ou propor melhorias para a cidade dos pássaros, os vereadores buscam holofotes ao defender figuras polêmicas.
É cínico usar “liberdade de expressão” para justificar o apoio a quem prega ódio. A mesma moção que repudia “perseguições” a Frei Gilson silencia sobre a perseguição histórica a religiões de matriz africana. A mesma casa que se diz “defensora da fé” não se mobiliza contra a falta de escolas em tempo integral ou a violência doméstica, por exemplo, problemas que assolam Arapongas.
Fé Não é Escudo para o Ódio
A religião pode ser um espaço de acolhimento e transformação social, mas Frei Gilson a transformou em arma. Sua influência não está em “unir fiéis”, e sim em semear divisão e preconceito. Ao aprovar essa moção, a Câmara de Arapongas não honra a população — normaliza discursos que corroem a democracia.
Cabe à sociedade questionar: por que vereadores eleitos para servir ao povo preferem apoiar um influencer de retrocessos? Enquanto isso, o verdadeiro “inimigo” segue sendo a desigualdade, não o comunismo fantasma. A fé que liberta não oprime. E a política que prioriza holofotes em vez de hospitais, escolas e dignidade, não merece nosso voto.