Dois vereadores. Duas falas com peso racial. Uma reação — e um silêncio. O problema não está apenas no discurso. Está em quem a Câmara decide ouvir.
A sessão desta segunda-feira, 13, promete um movimento previsível: a sociedade deve cobrar o vereador Arnaldo do Povo publicamente pela fala em que classificou a Zona Sul como “senzala na concepção da cidade”. Essa cobrança precisa ser firme e sem relativização. Contudo, há um problema mais amplo que a Câmara precisa enfrentar antes de qualquer discurso de indignação: a seletividade. O racismo estrutural na Câmara de Arapongas não começou com Arnaldo. E o silêncio que o antecedeu diz tanto quanto a fala que o gerou.
Quando a fala incomoda — e quando ela é simplesmente ignorada
Em 12 de maio de 2025, durante a sessão, o vereador Paulo Grassano (PP) afirmou, em plenário, ao tentar refutar acusações de racismo: “Pra mostrar que eu não sou racista, eu tenho até um assessor que é preto.”
A frase circulou. E então desapareceu.
A instituição manteve-se inerte. Faltou cobrança coletiva e a indignação interna simplesmente não ocorreu. O plenário seguiu em frente como se nada tivesse sido dito.
Vale registrar um dado que torna a comparação ainda mais reveladora: Grassano é branco. Arnaldo é preto. E, curiosamente, a cobrança pública — dentro e fora da Câmara — recaiu com muito mais peso sobre o segundo. Esse dado não é detalhe. Ele integra o próprio padrão do racismo estrutural na Câmara de Arapongas.
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O problema não é a fala isolada — é o padrão
A fala de Arnaldo carrega peso histórico evidente. Utilizar “senzala” para descrever um território habitado por trabalhadores é uma escolha linguística que precisa ser debatida, criticada e enfrentada politicamente. Isso é inegável.
Mas a fala de Grassano também não foi neutra. Ela se enquadra em um mecanismo amplamente documentado na sociologia e no direito: o tokenismo — a prática de usar uma pessoa negra como objeto de prova moral, esvaziando sua condição de sujeito para transformá-la em argumento de defesa. Não se trata, portanto, de um episódio isolado. Trata-se de um padrão.
Além disso, ambas as falas compartilham uma estrutura comum: reduzem a identidade negra a uma função — seja de habitante de cativeiro, seja de álibi racial de um parlamentar. Em ambos os casos, a pessoa negra deixa de ser sujeito e passa a ser ferramenta discursiva.
Racismo estrutural na Câmara de Arapongas: a incoerência que o silêncio revela
Se a Câmara reage agora, mas não reagiu antes, há duas hipóteses possíveis. Ou a instituição não reconhece o racismo quando ele aparece em certas formas. Ou escolhe, deliberadamente, quando reconhecê-lo. Ambas são graves — e ambas descrevem o que se entende por racismo estrutural na Câmara de Arapongas.
O racismo estrutural não se manifesta apenas em termos explícitos como “senzala”. Ele também se manifesta na naturalização de certas falas e torna-se evidente na omissão institucional. Sobretudo, revela-se na conveniência política sobre o que o plenário deve — ou não — enfrentar.
Não existe combate seletivo ao racismo. Se Arnaldo deve ser cobrado — e deve —, então Grassano também deveria ter sido. Uma vez que ambas as falas ferem a dignidade coletiva, a necessidade de resposta institucional deve ser a mesma para os dois casos. O que não pode existir é um plenário que reage conforme a vertente política ou a cor da pele do orador.
O critério não pode ser a conveniência
A Câmara de Arapongas tem, neste momento, a oportunidade concreta de fazer o que ainda não fez: enfrentar o racismo com coerência, sem seletividade e sem cálculo político. Isso significa reconhecer que o problema não está apenas em uma palavra usada em abril de 2026. Está também no silêncio de maio de 2025.
Quando a indignação institucional é seletiva, ela deixa de ser compromisso ético. Torna-se, assim, apenas mais um instrumento de disputa política. E é exatamente essa lógica — a da conveniência sobre a coerência — que alimenta o racismo estrutural na Câmara Arapongas sessão após sessão, ano após ano, sem que a instituição precise sequer admiti-lo.






