Em 30 de março de 2026, a Câmara de Arapongas passou mais de três horas sem mencionar 1964. O silêncio institucional diante de datas históricas sensíveis também é uma forma de posicionamento político.
A sessão da Câmara de Arapongas do dia 30 de março de 2026 durou mais de três horas sem uma única referência ao 31 de março ou 1º de abril de 1964. Esse dado, por si só, não é trivial. Em espaços institucionais, o silêncio também comunica e molda a memória política 1964 e o silencio institucional em torno do tema, revelando como o apagamento histórico é uma ferramenta de poder.
Não se trata de exigir discursos protocolares ou homenagens formais. Trata-se de reconhecer que datas como essa não pertencem ao passado encerrado — pertencem ao campo permanente de disputa sobre memória, democracia e responsabilidade pública.
Ao longo da sessão, houve embates intensos, sobretudo em torno do caso do vereador Paulo Grassano: acusações cruzadas, referências a investigação policial e tentativas de deslocamento do debate. Ainda assim, nenhuma fala conectou o momento à data que se aproximava, reforçando a memória política 1964 e o silencio como tática de neutralidade aparente.
Memória política 1964 e o silencio: exceção e linguagem de poder
O período da ditadura militar-empresarial iniciada em 1964 não foi apenas um episódio político. Foi a construção de um modelo de Estado baseado em exceção, controle e uso de instrumentos institucionais para conter vozes dissonantes. Naquele contexto, o recurso à autoridade policial, à investigação e à suspeição pública não era eventual. Era método.
É justamente nesse ponto que o debate contemporâneo exige atenção. Durante a sessão, ao tratar das denúncias que enfrenta, o vereador Paulo Grassano recorreu repetidamente à figura do “delegado” como elemento de validação de sua narrativa. Não se trata de comparar contextos distintos, mas de observar como a linguagem de autoridade policial volta a ocupar papel central em disputas políticas, evidenciando a memória política 1964 e o silencio institucional.
O presente sem memória e o silencio institucional
A ausência de qualquer menção ao golpe de 1964 durante a sessão não impede o debate político. Mas altera sua qualidade. Sem referência histórica, práticas e discursos passam a existir apenas no imediato. Perde-se a capacidade de reconhecer padrões, identificar repetições e compreender o peso de determinadas escolhas institucionais.
O silêncio, portanto, não é vazio — ele produz efeito. Desloca o debate para o campo das disputas individuais, desconecta o presente de processos históricos mais amplos e enfraquece a capacidade crítica da própria instituição. Em política, a memória política 1964 e o silencio não é apenas lembrança — é limite. E quando esse limite deixa de ser reafirmado, o risco não é repetir o passado da mesma forma, mas permitir que seus mecanismos reapareçam sem reconhecimento.






