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Waldyr Pugliesi e o fim do MDB Velho de Guerra em Arapongas

Retrato de Waldyr Pugliesi com faixa de luto, destacando seu legado político em Arapongas e sua ligação com o MDB Velho de Guerra

Arapongas não foi construída pela “mão invisível do mercado”, mas por pessoas com Waldyr Pugliesi. A cidade foi erguida pelo trabalho da sua gente e por um Estado que, em determinado momento, organizou o desenvolvimento. A morte de Waldyr Pugliesi encerra mais do que uma vida pública longa. Ela marca o fim de um ciclo político e o colapso de um modelo de poder no interior do Paraná.

Quem foi Waldyr Pugliesi

Waldyr Ortêncio Pugliesi nasceu no interior paulista e chegou a Arapongas ainda jovem, já formado em Odontologia. Sua entrada na política foi orgânica — construída a partir do contato direto com a população, sem atalhos.

Ao longo da trajetória, foi vereador, prefeito por três mandatos, deputado estadual e deputado federal constituinte. Desde o início, fez uma escolha política clara: recusou a ARENA durante a ditadura e integrou o MDB, posicionando-se firmemente no campo democrático.

O Estado indutor e o “pai da cidade”

Waldyr Pugliesi governou Arapongas em momentos decisivos. Ele compreendeu cedo que a cidade não sobreviveria apenas do café. Por isso, estruturou distritos industriais e criou as bases do polo moveleiro que define a cidade até hoje.

Seu modelo era o do Estado indutor: o poder público organizava o crescimento econômico e garantia infraestrutura onde o mercado não chegaria por conta própria.

Ao mesmo tempo, construiu uma imagem popular consistente. Era um gestor próximo, acessível, conhecido tanto pelos servidores quanto pela população. Esse estilo consolidou, ao longo do tempo, a figura do “pai da cidade”.

Havia, portanto, um pacto implícito: desenvolvimento econômico com alguma proteção social. Ainda que desigual, esse modelo mediava conflitos entre capital e trabalho e conferia legitimidade ao poder público.

Requião, o MDB e o “Velho de Guerra”

Não é possível entender Waldyr Pugliesi sem compreender sua relação com Roberto Requião.

Enquanto Requião atuava como liderança de confronto na capital, Waldyr operava no interior com articulação e estabilidade. Essa complementaridade sustentou um projeto político por décadas — dois estilos distintos a serviço de uma mesma identidade partidária.

O chamado “MDB Velho de Guerra” não era apenas memória. Era, sobretudo, uma estratégia de poder. Representava a defesa de um partido com identidade própria, vinculado à resistência democrática e ao legado de Ulysses Guimarães.

Waldyr Pugliesi foi um dos últimos a sustentar esse modelo no Paraná. E sustentou com convicção.

Os limites e o esgotamento do projeto

O projeto de Pugliesi, no entanto, tinha limites claros. Ele apostou na conciliação entre capital e trabalho — e essa aposta funcionou enquanto o Estado ainda era o principal organizador do desenvolvimento local.

Com o tempo, porém, essa estratégia encontrou seu teto. A industrialização fortaleceu uma elite que progressivamente deixou de depender do Estado indutor para crescer.

A política local mudou de eixo. A base econômica se diversificou. O agronegócio, os serviços e o mercado imobiliário passaram a comandar a dinâmica da cidade — e a ditar suas prioridades.

A transição: da política ao gerenciamento

Arapongas viveu, então, uma transição silenciosa mas profunda. O debate sobre projeto de cidade foi gradualmente substituído por uma lógica de gestão pragmática e de curto prazo.

Hoje, o poder público atua como facilitador de interesses econômicos. O foco deixou de ser o planejamento de longo prazo e passou a ser a execução rápida de obras e a captação de recursos — sem necessariamente questionar em favor de quem.

Essa mudança não ocorreu por acaso. Ela reflete, antes de tudo, a reorganização das elites locais e o enfraquecimento de projetos políticos estruturados capazes de disputar o sentido do desenvolvimento.

O fim de um ciclo

Waldyr Pugliesi representou uma forma de fazer política que já não encontra espaço no cenário atual.

Ele governou buscando equilibrar interesses. O modelo que veio depois, contudo, não busca equilíbrio. Opera diretamente a favor das dinâmicas do capital, sem a mediação que caracterizou sua era.

Sua morte simboliza o fim do MDB histórico no interior do Paraná. Marca, também, o encerramento de uma era em que a política ainda era, em alguma medida, disputa de projeto — e não apenas administração do que já está dado.

O desafio que fica é outro: compreender a nova realidade e reconstruir a capacidade de disputar, com clareza e coragem, o futuro da cidade.

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