A improbidade administrativa do vereador Pardini voltou ao centro do debate na Câmara de Arapongas. Na sessão de 3 de novembro, o vereador Valdecir Pardini tentou “se explicar” sobre falas anteriores, mas acabou reafirmando o uso indevido de sua estrutura pública. Em tom de deboche, disse que “tem pessoas que a gente tem que desenhar”. Pois bem, vereador — vamos desenhar.
O que Pardini confessou no plenário
Na sessão de 29 de outubro, Pardini admitiu que utiliza servidoras de seu gabinete, pagas com dinheiro público, para agendar consultas e captar pessoas em um suposto projeto social. O parlamentar chamou isso de “encaixe”, um eufemismo para clientelismo político — prática antiga, mas ainda criminosa.
Esse tipo de conduta, vale lembrar, é desvio de função pública. A lei é clara: usar servidoras para fins privados fere a Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/92), que pune quem enriquece ou obtém vantagem indevida com o cargo, além de violar princípios da administração pública.
O “projeto social” com a ONG e o desvio de finalidade
Durante o discurso, Pardini tentou justificar-se dizendo que possui “um projeto com uma ONG de São Paulo chamada Visão Mais Brasil”. Segundo ele, a ONG realiza consultas oftalmológicas em igrejas e empresas da cidade — e vende óculos “a preço acessível”.
O problema é outro: não existe convênio formal com o município, mas há servidores públicos envolvidos e cobrança de valores. Assim, a mistura entre função pública, religião e promoção pessoal fere o artigo 37 da Constituição Federal, que proíbe o uso do cargo para autopromoção.
Linha tênue entre “ação social” e crime
Ao dizer que faz “encaixes” e intermedia atendimentos, Pardini descreve o que o Código Penal (art. 312) chama de peculato-desvio — usar o cargo para beneficiar terceiros. Ou seja: não é favor, é crime.
Mais do que um deslize de fala, a confissão é grave. Se as declarações do vereador forem verdadeiras, há indícios de uso irregular de servidoras, desvio de finalidade e promoção pessoal. A dúvida que fica é inevitável: não seria o caso de o Ministério Público investigar?
Um “projeto de visão” que precisa de transparência
O vereador afirmou que o projeto “é um sucesso” e que “a população adora”. Porém, sucesso mesmo seria esclarecer onde termina o voluntariado e começa a improbidade.
Em Arapongas, a ética segue com as lentes embaçadas. E o “projeto de visão” do vereador Pardini parece não incluir, entre suas metas, a transparência pública — algo que, neste caso, está mais fora de foco do que nunca.






