Tem dias que a gente acorda com o gosto amargo da injustiça na boca. E na política, essa injustiça muitas vezes tem gênero e endereço. Aqui mesmo, na nossa Arapongas, a cena se desenhou com uma clareza que dói: a vereadora Meyri Faria (PDT), no uso legítimo de sua palavra, foi covardemente interrompida.
O motivo? Ela explicava o óbvio: que o projeto de lei do herdeiro milionário, que se comportava como um moleque mimado, era prerrogativa da Mesa Diretora, da qual ela faz parte. Ocorre que a resposta do “nobre” colega não foi um contraponto, um argumento, uma ideia. Foi o silenciamento. Um homem interrompendo uma mulher em seu local de trabalho e de poder. Esse é o recado que eles querem passar. Mas é um recado que a gente não vai aceitar.
CRITICAR O MANDATO OU CALAR A MULHER?
Antes de avançar, um ponto de ordem, meu povo. Sei que a crítica política é o oxigênio da democracia. Portanto, uma coisa é o pau cantar no debate de ideias, cobrar coerência, apontar a defesa de um projeto de morte da extrema-direita, escancarar a distorção de fatos. Desta forma, a crítica é legítima e necessária, seja o parlamentar homem ou mulher. Pau que bate em Chico, tem que bater em Francisca.
Outra coisa, completamente diferente, é a baixaria. É a violência que visa excluir, silenciar ou diminuir uma mulher pelo fato de ser mulher. São os ataques misóginos, sexistas, que miram estereótipos de gênero, que invadem a vida pessoal ou que associam sua capacidade intelectual e emocional ao seu sexo. Isso não é crítica, é crime. E tem nome: violência política de gênero.
A ESCOLA DA COVARDIA: DO LOCAL AO ESTADUAL
O que aconteceu com a vereadora Meyri em Arapongas é o módulo 1 desse curso de covardia. Pois é a tentativa de desmoralizar a autoridade de uma mulher que ocupa um espaço na Mesa Diretora, dizendo nas entrelinhas: “Sua função técnica não importa, quem manda aqui sou eu”.
Portanto, essa tática, infelizmente, tem pós-graduação na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP). O deputado Ricardo Arruda (PL), por exemplo, é um especialista. Tendo em vista os ataques a deputada Ana Júlia (PT) não por suas ideias, mas por suas roupas e sua juventude. Contudo, foi condenado na justiça por chamar a ministra Gleisi Hoffmann de “amante”, um dos insultos mais velhos da cartilha machista. Em ambos os casos, o objetivo não era o debate político, mas a humilhação pessoal, a tentativa de destruir a mulher para anular a parlamentar.
“A nossa luta não é para que as mulheres na política sejam intocáveis. É para que sejam criticadas por suas ideias e não atacadas por seu gênero.”
Mas o feitiço às vezes vira contra o feiticeiro. Nesta semana, a ALEP deu um exemplo de lucidez. Após a deputada decana Luciana Rafagnin (PT) ser alvo de ataque vil, parlamentares de diversos partidos, da oposição à situação, se levantaram em sua defesa. Não defenderam sua ideologia, mas seu direito de existir e de exercer seu mandato em paz. Solidarizaram-se com a mulher e, ao fazerem isso, defenderam a própria instituição democrática. Foi um recado claro: a barbárie tem limite.
A LEI 14.192: NOSSA ARMA CONTRA A BARBÁRIE
É para separar o joio do trigo que existe a Lei 14.192/2021. Ela é o nosso bisturi. A lei é clara ao criminalizar o ato de “assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar” uma mulher para dificultar seu mandato.
A interrupção sofrida por Meyri em Arapongas? Constrangimento. Os ataques de Arruda contra Ana Júlia? Humilhação. O xingamento a Gleisi? Menosprezo. Os ataques que geraram a solidariedade a Luciana? Perseguição. A lei não está aí para blindar políticos de críticas, mas para proteger a democracia da selvageria misógina.
Não podemos permitir que a política de Arapongas se torne uma filial do que há de pior na capital. O que aconteceu na Câmara não foi um “bate-boca”, foi a manifestação de um projeto que quer a mulher submissa e calada. Nossa resposta não pode ser o silêncio. Tem que ser a denúncia, a organização e a consciência. Temos que saber diferenciar o debate duro da violência covarde. E contra a covardia, tolerância zero.