A moção que escancarou a violência de gênero na Câmara de Arapongas
Na sessão de 3 de novembro de 2025, a Câmara Municipal de Arapongas aprovou uma Moção de Repúdio (confira abaixo) contra as agressões cometidas pelo vereador Aroldo Pagan (PODEMOS). Dias antes, ele havia interrompido a vereadora “Meyri” Farias (PDT) e ofendido uma mulher na plateia, chamando-a de “perturbada” e sugerindo que “tomasse remedinho”.
O documento, apresentado pela Procuradoria da Mulher, denuncia o comportamento misógino do parlamentar e pede providências. No entanto, o debate revelou algo maior: a violência de gênero na Câmara de Arapongas não é exceção, é rotina institucionalizada.
Quem votou contra o repúdio
Dos 15 vereadores, cinco não votaram a favor da moção:
- Aroldo Pagan (PODEMOS) — o próprio agressor;
- Décio Rosanelli (PODEMOS) — que cercou a tribuna em tom de intimidação;
- Arnaldo do Povo (AVANTE) — que pediu “pra passar uma borracha nisso aí”;
- Paulo Grassano (PP) — sempre pronto a se vitimizar;
- Marilsa Staub Vendrametto (PL) — a única mulher que se absteve.
Desta forma, essas ausências e abstenções deixaram evidente como parte da Câmara ainda relativiza a violência de gênero, trata-se portanto, o tema como mero ruído político.
A tática do dicionário
Durante a defesa, Pagan tentou transformar ofensa em semântica.
“Busquei o significado da palavra perturbada… Então me desculpe, mas a moça estava totalmente perturbada.”
Além disso, com essa “tática do dicionário”, ele ignorou o contexto de poder: um vereador, no microfone, atacando uma cidadã. Ademais, em vez de reconhecer a agressão, usou o dicionário como escudo — o tipo de expediente que reduz a violência de gênero na Câmara de Arapongas a uma disputa de palavras.
A tática da inversão
Já Décio Rosanelli (PODEMOS) preferiu inverter os papéis.
Da mesma forma, usou o caso de sua assessora, vítima de agressão, para atacar as vereadoras da Procuradoria da Mulher, chamando-as de “hipócritas”.
Isto é, portanto, a clássica inversão de culpa: quando quem foi acusado tenta parecer o verdadeiro defensor das mulheres. Assim, a violência de gênero na Câmara de Arapongas se renova, mascarada de indignação seletiva.
A tática da borracha
O vereador Arnaldo do Povo (AVANTE) sugeriu que todos “passassem uma borracha” no caso.
“O Aroldo não representa perigo para nenhuma mulher”, disse.
Essa tentativa de apagar o problema simboliza o machismo institucional: minimizar, relativizar e seguir adiante. Enquanto isso, Marilsa Staub Vendrametto (PL) preferiu o silêncio. E, na política, o silêncio também fala — e, muitas vezes, protege.
Um plenário em negação
Apesar do comportamento dos cinco vereadores, a moção foi aprovada por dez votos favoráveis.
Entretanto, o texto do repúdio não mencionou a agressão sofrida pela própria vereadora Meyri, atacada verbalmente e fisicamente no plenário. Assim, mesmo a vitória veio com omissão — como se algumas violências merecessem nota e outras, esquecimento.
O desafio ético que vem a seguir
Agora, cabe à Comissão de Ética da Câmara de Arapongas mostrar que ética não é peça decorativa de regimento.
Entre denúncias de improbidade administrativa, reincidência em violência política de gênero e condutas abusivas, o mínimo esperado é coragem institucional.
Porque, quando o poder se cala diante da violência, o silêncio também agride — e o microfone público passa a servir de escudo para covardes.
Confira na íntegra a nota
Senhor Presidente; Senhores (as) Vereadores (as):
As Vereadoras subscritoras do presente, no uso de suas atribuições regimentais, representando a Procuradoria Especial da Mulher da Câmara Municipal de Arapongas, vêm, ouvido o plenário, manifestar repúdio ao ato praticado pelo vereador Aroldo Pagan durante a sessão ordinária realizada em 29 de outubro de 2025, ocasião em que o mesmo ofendeu publicamente a senhora Natalina Fernandes, cidadã presente no plenário, chamando-a de “perturbada” ao microfone.
Tal conduta é incompatível com o decoro parlamentar e fere os princípios que devem nortear o exercício do mandato eletivo, especialmente em um espaço público e democrático como o plenário.
A Procuradoria Especial da Mulher reafirma seu compromisso com a defesa dos direitos das mulheres, com o combate a toda forma de violência e desrespeito, e reforça a necessidade de que as instituições públicas sejam ambientes de diálogo, ética e respeito mútuo.
Sendo assim, contando com o apoio de Vossas Excelências, nobres pares, para um tema de extrema relevância relacionado à erradicação de agressões contra as mulheres, solicita e antecipa a aprovação unânime dos nobres pares.
Arapongas, 03 de novembro de 2025.
Rosemary Soares Gomes – Procuradora Especial da Mulher
Simone de Almeida Santos – Procuradora Adjunta