Dia 24 de abril foi dia de Ogum. Guerreiro, dono do ferro, da coragem, da luta. Patrono dos teimosos que insistem em abrir caminhos mesmo quando o mato é alto e o machado está cego. Ogum não é de conversa mole. Ogum é ação. Diferente de muitos seres que, nesta semana, tentaram — de novo — se esconder atrás da própria esperteza. Enquanto Ogum tentava abrir caminhos no meio do matagal de corrupção e mau-caratismo, cá embaixo a gente assistia a uma sequência de tragédias e comédias dignas de pastelão.
Falando em fuga e esperteza: enquanto Ogum brandia sua espada invisível, do outro lado do mundo chegava a triste notícia da morte do Papa Francisco. O único Papa em décadas que realmente tentou viver o cristianismo. O argentino dos pobres, o “comunista” odiado pelos “cristãos de bem”. Muitos que compartilham versículos bíblicos acompanhados de fotos com armas chamavam o Papa de comunista só porque ele se atrevia — que ousadia! — a falar sobre compaixão, justiça social e acolhimento.
Francisco, o primeiro latino-americano a ocupar o trono de Pedro, nunca foi um Papa de palácios dourados, mas sim um defensor dos excluídos e do diálogo. Por isso, entre orações e postagens sobre “família tradicional”, muitos conservadores decidiram ignorar suas realizações e focar nos seus “pecados progressistas”. Difícil entender.
Enquanto Francisco entregava a alma a Deus, nosso querido ex-presidente inelegível e futuro presidiário, o mito de barro, estreava o novo quadro: “UTI ou palco?” Internado, porém recebendo mais visitas que bar em final de semana ou festa de 15 anos, o quarto estava mais lotado que van de sertanejo. Live, selfie, transmissão ao vivo — só faltou vender ingresso.
O que era para ser um procedimento discreto virou um circo mambembe, com celular para todos os lados e equipe médica perdida no meio da muvuca. Bolsonaro, o “paciente grave”, ficou indignado: “Você não sabe que aqui é uma UTI?”.
Sabemos, sim. O que ninguém sabia era que agora UTI aceitava plateia — ali tinha mais câmeras que camarim da Anitta. Parecia camarote VIP no Carnaval. Tudo armado. Plateia organizada.
Os bolsonaristas surtaram: “Coitado do nosso mito! Intimado no leito da morte!” Morte? Se aquilo era UTI, eu sou o Bono Vox. Em Arapongas, teve herdeiro (da ditadura) legendário com chororô nas redes sociais: “Onde já se viu entregar intimação numa UTI?”, mostrando que a idolatria cega até onde a luz da razão não alcança. Ora, meus caros, quem arma cenário de hospital para parecer coitadinho e tenta barrar a justiça não é santo: é esperto — ou pensa que é.
Ainda nessa montanha-russa moral, explodiu o escândalo do INSS. Fraudes milionárias, aposentadorias fantasmas, rombo bilionário. E de quem é a culpa? Do Lula, óbvio — segundo os especialistas em política de WhatsApp.
Só esqueceram de combinar com a realidade: a roubalheira começou em 2019, no governo “patriótico e honesto” sob Bolsonaro, o capitão do cercadinho, o mito da cloroquina — aquele que achava denúncia um ataque pessoal e auditoria uma afronta.
Só agora, com Lula, começaram a abrir as gavetas fedidas. E a turma do “Deus acima de tudo, corrupção abaixo do tapete” ficou pistola? Claro. Ninguém gosta quando o rabo preso começa a coçar. Afinal, na lógica do zap zap bolsonarista, a culpa é de quem achou a sujeira — e não de quem cagou no chão. Normal.
Para fechar com chave de latão — porque o Brasil nunca é pouco — tivemos Collor de Mello, o eterno “caçador de marajás” (e hoje cabo eleitoral bolsonarista), finalmente indo parar onde deveria estar desde os tempos da Fiat Elba: na cadeia.
Preso por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha — crimes dignos do currículo de certos políticos de terno italiano e ética de porta de banheiro de rodoviária. Diferente do Lula, que a Lava Jato tentou, forçou, manipulou e não conseguiu provar nada sólido, Collor caiu de maduro, condenado com provas de verdade.
O primeiro presidente impichado, que lambeu as botas bolsonaristas até ficar sem saliva, foi trancafiado. Não foi golpe, não foi perseguição política, não foi erro judicial: foi justiça. Daquelas que Ogum assina embaixo, sem choro nem vela.
Resumo da ópera: numa semana, vimos um santo de verdade (Francisco) partir em paz — enquanto muito “cristão” segue mais preocupado em odiar pobre do que em praticar amor; um farsante tentando escapar da justiça dando chilique em live; um escândalo velho explodir no colo de quem jurava ser a “nova política”; e um marajá moderno sendo algemado e ganhando seu lugarzinho ao sol… ou melhor, na sombra da cadeia.
Enquanto isso, Ogum — cansado, suando, espada na mão — olha tudo isso lá de cima, vê tanta luta para limpar o caminho e sempre alguém jogando entulho na estrada, dá três passos pra trás e pensa: “Deixa que a justiça de Xangô resolve, porque isso aí nem ferro quente ajeita.”
O Brasil, como sempre, segue sendo o país onde santos morrem incompreendidos, corruptos fazem drama na UTI e alguns políticos acreditam que o ferro de Ogum não corta para o lado deles.
Spoiler: corta sim.