|

Entre Correntes Invisíveis, Idolatrias e as Vozes que Silenciamos

Mais uma semana se passou, e o Brasil, como sempre, foi palco de absurdos que fariam qualquer escritor de ficção parecer tímido. Aqui, o surreal não só é possível como se reinventa a cada dia. De Arapongas ao cenário nacional, tudo parece costurado por um mesmo fio: a cegueira coletiva diante das correntes que nos aprisionam.

Comecemos por Arapongas, onde o teatro da política local segue surpreendendo. Já falamos das comissões permanentes da Câmara, mas é impossível ignorar, mais uma vez, a composição surreal de algumas delas. A cereja do bolo é a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública, ocupada por um jovem empresário herdeiro que dificilmente entende as reais demandas da população. Somem-se a ele uma advogada que construiu sua imagem como “mãe de autista” – mas que pouco aprofunda debates necessários – e um vereador adepto do assistencialismo barato. É quase uma sátira: pessoas tão distantes da realidade tentando (ou fingindo tentar) lidar com os direitos humanos e a segurança pública.

Enquanto isso, no cenário nacional, a data de 24 de janeiro marcou os 190 anos da Revolta dos Malês. Ah, os malês… Que diferença faz quando se luta por liberdade de verdade, não é? Esses escravizados muçulmanos nos lembram que resistir é uma escolha corajosa, mesmo quando a opressão parece invencível. E hoje, 190 anos depois, quantos de nós ainda estamos presos em correntes invisíveis, aceitando calados o sistema exploratório que nos consome? Talvez a maior tragédia seja essa: não ver as correntes que nos prendem.

E falando em aceitar calados, não podemos ignorar os impactos da retirada de medidas de fiscalização financeira pelo governo federal. Em meio a fake news e pânico nas redes sociais, a população, manipulada e desinformada, acabou condenando uma tentativa de controle que buscava atingir os poderosos que realmente lucram com a desregulação. Enquanto isso, seguimos distraídos com narrativas de medo, esquecendo que o verdadeiro inimigo continua nas sombras, explorando e acumulando.

Por fim, a morte do professor Roberto Navarro nos trouxe um momento de reflexão. Ele foi mais do que um educador; foi uma voz única, alguém que entendia o poder da cultura como ferramenta de transformação. Em uma semana repleta de idolatrias vazias – como vereadores exaltando deputados desinformadores –, lembrar de Navarro é um ato de resistência. Ele nos dizia que a comunicação era uma arte, e talvez, hoje, precisamos dessa arte mais do que nunca.

O Brasil segue assim: dividido entre os que resistem e os que se acomodam. Entre os que gritam e os que preferem o silêncio confortável. Entre os que enxergam as correntes e os que fingem que não existem. Que venha mais uma semana – e que ela traga, quem sabe, menos idolatria, menos alienação e mais coragem para enfrentar a realidade. Afinal, como os malês nos ensinaram, liberdade não se pede. Liberdade se conquista.

Comentários sobre a postagem

Aviso sobre comentáriosÉ obrigatório informar nome e e-mail para envio de comentários. Lembre-se de que você é responsável civil e criminalmente pelo conteúdo publicado, incluindo eventuais crimes cometidos. Seus dados serão tratados de acordo com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), sendo preservados conforme as leis em vigor e a Constituição Federal. Ao enviar seu comentário, você concorda com essas condições.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *