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Câmara de Arapongas – senzala Palmares: silêncio e racismo

Vereador Arnaldo do Povo após declarar que a Zona Sul de Arapongas é uma “senzala” durante sessão da Câmara

Na sessão da Câmara Arapongas do dia 6 de abril de 2026, um episódio de gravidade incomum tomou o plenário — e saiu por ali mesmo, quase sem resposta. O vereador Arnaldo do Povo (AVANTE) afirmou, com microfone aberto, que o “Palmares é a senzala na concepção da cidade”. A fala não recebeu contestação. O vereador que mais tinha responsabilidade de reagir escolheu o silêncio. Portanto, o que aconteceu naquela tribuna não foi excesso retórico. Foi um evento político com peso histórico real — e precisa ser tratado como tal. O caso Câmara de Arapongas – senzala Palmares expõe, assim, dois problemas simultâneos: o uso irresponsável de uma palavra carregada de dor histórica e a omissão institucional que a seguiu.

“O Palmares é a senzala na concepção da cidade”, Arnaldo do Povo (imagens reprodução Câmara de Arapongas)

Senzala Palmares: quando a palavra ultrapassa a metáfora

Antes de qualquer análise, é preciso corrigir um equívoco recorrente: a palavra “senzala” não é sinônimo de pobreza, periferia ou abandono. Ela designa, especificamente, o espaço de confinamento, desumanização e subjugação racial da população negra escravizada no Brasil. Assim, usá-la para nomear um território urbano habitado por trabalhadores não configura crítica social — configura reprodução de uma estrutura simbólica de opressão.

Às 01h41min40s da sessão, Arnaldo do Povo foi direto ao ponto: “O Palmares é a senzala na concepção da cidade.” Em seguida, completou: “O tempo da escravidão já passou, mas parece que na cabeça de alguns poderosos aqui em Arapongas, a senzala ainda existe e tem que baixar a cabeça para a casa-grande.”

A intenção não apaga o efeito

O vereador tenta construir uma narrativa de resistência. No entanto, ao fazê-lo, produz o efeito oposto: reduz o Conjunto Palmares — polo comercial, núcleo social e coração da Zona Sul — à condição simbólica de espaço subalterno. Mesmo que a intenção seja denunciar o abandono histórico da periferia, o instrumento escolhido reforça o estigma que deveria combater.

Esse é o paradoxo central da fala: ela tenta defender uma comunidade ao mesmo tempo em que a aprisiona em uma imagem histórica de degradação. Além disso, há uma diferença fundamental entre denunciar a segregação urbana e reproduzir, simbolicamente, a lógica que a sustenta. A crítica legítima ao abandono da periferia não precisa — e não deve — recorrer ao vocabulário da escravidão. Quando recorre, deixa de ser denúncia e passa a ser instrumento de dano, ainda que involuntário.

Portanto, a questão não é apenas política. É também racial, histórica e simbólica. E quando uma fala desse peso ecoa em uma Casa de Leis sem qualquer resposta institucional, o problema se multiplica de forma preocupante.

O silêncio de Cecéu e a omissão da Câmara de Arapongas diante do racismo

Enquanto Arnaldo do Povo construía sua retórica com termos da escravidão, o vereador Sebastião Ferreira da Silva — o Cecéu (PSD) — permanecia em silêncio. Nenhum aparte. Nenhum pedido de palavra. Nenhuma contestação. O registro fonográfico da sessão confirma: ele estava presente, havia participado de votações e indicações no início do expediente. Ainda assim, não disse uma palavra enquanto o [conjunto] Palmares recebeu o rótulo de senzala.

Esse dado, por si só, já seria relevante. Contudo, ele se torna ainda mais grave quando consideramos quem é Cecéu no contexto institucional da Câmara de Arapongas: um homem preto, representante direto da Zona Sul e dos moradores do Conjunto Palmares. Ou seja, havia ali um parlamentar com dupla responsabilidade — territorial e racial — para intervir. E ele não o fez.

Silêncio como posicionamento político

No processo legislativo, o silêncio diante de uma fala grave equivale à aquiescência tácita. Quem cala, consente. Dessa forma, ao não utilizar seu lugar de fala para reposicionar o debate, Cecéu permitiu que a narrativa da subalternidade ficasse registrada nos anais da Casa sem o devido contraponto.

Duas possibilidades analíticas se apresentam. A primeira é a conveniência política: Cecéu integra a base do PSD, e intervir poderia expor tensões internas no bloco. A segunda é uma limitação de letramento racial — ou seja, a incapacidade de identificar, em tempo real, o peso histórico do termo utilizado e de articular uma resposta à altura. Em ambos os casos, o resultado é idêntico — e igualmente problemático.

A instituição também silenciou

Além disso, o episódio revela algo mais amplo. Não se trata apenas de uma falha individual. A Câmara de Arapongastambém silenciou como instituição. Nenhum outro parlamentar interrompeu. Nem a presidência de sessão pontuou. O racismo estrutural entrou pela tribuna, tomou assento no plenário e saiu sem contestação formal. Esse é o dado mais revelador — e mais preocupante — de todos.

Palmares, senzala e representatividade: o que o episódio expõe de estrutural

A política não se mede apenas por presença ou mandato. Ela se mede, sobretudo, pela capacidade de agir quando é necessário — especialmente quando o que está em jogo é a dignidade coletiva de uma comunidade inteira.

O Conjunto Palmares não é um bairro qualquer. É o maior complexo habitacional da Zona Sul de Arapongas, um território com comércio ativo, vida social intensa e população que trabalha e contribui com o município — como o próprio Arnaldo do Povo reconheceu em seu discurso. Portanto, chamar esse espaço de senzala não é apenas uma escolha retórica infeliz. É uma classificação que localiza aquela comunidade em um lugar histórico de inferioridade — e que, por isso, exige resposta imediata, clara e fundamentada.

Três falhas concretas que o episódio revela

A ausência de resposta expõe três problemas concretos e interligados. Primeiro, a fragilidade da representatividade quando ela não se traduz em defesa real no momento em que mais importa. Segundo, a normalização de uma linguagem racialmente carregada dentro de espaços institucionais que deveriam combatê-la. Terceiro, e talvez o mais grave, a incapacidade estrutural da Câmara de Arapongas de identificar e reagir ao racismo discursivo quando ele aparece vestido de crítica social.

Consequentemente, o episódio da Câmara de Arapongas – senzala Palmares não é um detalhe isolado da sessão. É um sintoma. Ele mostra como o debate político local ainda opera com referências perigosas, enquanto parte dos seus representantes não demonstra preparo — ou disposição — para confrontá-las no momento em que isso importa de verdade.

Há coisas que não podem ser naturalizadas. Há palavras que não podem ser normalizadas. E há silêncios que, quando institucionais, deixam de ser omissão pessoal e passam a ser problema coletivo.

O [conjunto] Palmares merece mais do que servir de símbolo no discurso de alguém. Merece representantes que, quando necessário, saibam dizer — com clareza e sem hesitação — que o tempo da senzala passou. E que não será no plenário da Câmara de Arapongas que ele vai ressurgir.

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