Enquanto boa parte da população de Arapongas acorda antes do sol, encara transporte precário e trabalha seis dias por semana para, no fim do mês, levar pouco mais de um salário mínimo pra casa, o vereador Paulo Grassano parece viver em outro país — um onde o dinheiro público serve de almofada confortável para “missões oficiais”.
De acordo com documento oficial da Câmara Municipal, o “nobre” parlamentar solicitou 2,5 diárias com pernoite, totalizando R$ 1.847,98, para uma viagem de apenas dois dias e meio a Curitiba. O motivo declarado: reuniões para “buscar recursos” e “melhorias viárias”. Bonito no papel, mas difícil de engolir na prática.
A conta que não fecha
A saída está marcada para 27 de outubro e o retorno para o dia 29. Duas reuniões e meia, três dias de deslocamento — e um valor que muitos trabalhadores araponguenses levam 30 dias de suor e labuta para juntar.
A diária cobrada pelo nobre legendário ultrapassa o rendimento líquido de uma diarista, de um operador de produção ou de um servidor público de base.
É o retrato da desigualdade institucionalizada: o poder público que cobra sacrifício do povo, mas se serve com privilégios sem pudor. O mesmo vereador que vive pregando austeridade, que fala em “cuidar do dinheiro do povo”, não teve constrangimento algum em pedir quase dois mil reais para passar dois dias fora.
A justificativa, claro, vem embalada em palavras nobres — “reuniões técnicas”, “interlocuções estratégicas”, “busca por melhorias”. Mas para quem rala de segunda a sábado por R$ 1.800, esse tipo de “melhoria” soa como deboche.
O curioso é que esses mesmos políticos costumam criticar o “gasto público irresponsável” — até que o gasto seja o deles. A hipocrisia, mais uma vez, tem CNPJ, assinatura e depósito programado.
Enquanto isso, o povo de Arapongas continua com ruas esburacadas, escolas com estrutura precária e transporte insuficiente.
Mas o “nobre legendário” terá, ao menos, uma estadia confortável em Curitiba — bancada por quem pega ônibus às seis da manhã.
O Brasil real é esse: o da diária de luxo paga com o suor do trabalhador comum.