A semana terminou em Arapongas com o mesmo cheiro que fica no ar depois de um raio forte: aquele prenúncio de que algo rachou — e que ninguém poderá fingir que não ouviu. Logo na abertura desta crônica da semana em Arapongas, enquanto o Paraná via Rio Bonito do Iguaçu ser dilacerada por um tornado que arrancou telhados, histórias e rotinas como quem vira uma página com violência, a política local se agitava em sua própria tempestade, feita não de ventos, mas de contradições. E, assim, o paralelo entre o desastre natural e o desastre político se impôs.
A devastação no sudoeste do estado — tão literal, tão brutal — serviu de metáfora involuntária para outra devastação, a institucional, que se desenrola lentamente nas salas refrigeradas da Câmara de Vereadores da Cidade dos Pássaros.
O velho hábito de calar mulheres
Enquanto isso, a violência política de gênero continuou a ecoar pelos microfones. O método permanece o mesmo: interromper, ridicularizar, desestabilizar — e depois chamar de debate. É o machismo tentando sobreviver travestido de opinião.
Não é apenas a fala de uma vereadora que se tenta cortar. É a ideia de que mulheres possam ocupar espaços de poder sem pedir permissão. E Arapongas, como o Brasil, ainda tem quem confunda permissão com concessão.
O plenário que deveria abrigar a democracia insiste em ser ringue. E o que chamam de divergência nada mais é do que a velha tática de quem teme perder o palco.
O caso Grassano e o moralismo com hora marcada
Em paralelo, as denúncias envolvendo Paulo Grassano — todas já escancaradas ao longo de meses em O Trovão — reapareceram com força. Assédio político, uso indevido de estrutura pública, irregularidades administrativas e práticas incompatíveis com o cargo: tudo velho conhecido dos que acompanham a rotina legislativa.
Mas só agora, curiosamente, a classe política resolveu se escandalizar.
Não por justiça.
Por conveniência.
Há um moralismo que só desperta quando alguém percebe que pode afundar junto. E Arapongas conhece bem esse perfume: cheira a medo, não a ética.
Brasília e Arapongas: espelhos rachados
Enquanto isso, em Brasília, a escolha de Guilherme Derrite para relatar o PL Antifacção reacendeu o alerta nacional. A manobra — criticada por especialistas — promete enfraquecer investigações e fortalecer setores que lucram com a sombra.
E é difícil não enxergar o paralelo: aqui, como lá, quem deveria defender o interesse público parece mais preocupado em proteger seus próprios muros.
Em ambos os cenários, a lógica se repete: a política não enfrenta tempestades, apenas muda de guarda-chuva.
Um Paraná que treme, um estado que insiste em posar
O tornado destruiu Rio Bonito do Iguaçu, mas também varreu a ilusão de que estamos preparados. Ratinho Jr. apareceu com botas e pronunciamentos, mas a prevenção continua sendo ponto cego.
Com a COP-30 no horizonte, o Paraná tenta posar de guardião do clima, enquanto ignora os sinais que o próprio clima envia.
A natureza avisou.
A política não aprendeu.
A semana se encerra, mas o vento não
O domingo chega como aquele instante antes da próxima rajada. Além disso, a Câmara está inquieta. A base governista, silenciosa demais, ensurdecedor. As denúncias, de volta ao centro. E o tabuleiro político, prestes a mexer peças que fingiam estar coladas.
O Trovão ouve esse silêncio estranho — e ele não promete calmaria.
O que vem aí não é brisa.
É movimento.
Assim se fecha esta crônica da semana em Arapongas.