Primeiro dia em Havana: A Vida Real e o Câmbio

Pessoas em fila na calçada observando um caminhão azul antigo passar

A noite em Havana é mistério, mas o dia é um livro aberto.

Vista de cima de uma rua em Havana, mostrando asfalto gasto, calçadas e fachadas de casas antigas.
A vista da sacada da Rosmary: o asfalto, a arquitetura e o despertar de Centro Habana. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)

Acordei por volta das 09h30 na Calle Animas. Da sacada, a vista de Centro Habana não escondia nada: a grandiosidade do Hospital Hermanos Ameijeiras ao fundo contrastava com as ruas desgastadas e vivas lá embaixo. Sem a maquiagem da escuridão, a cidade se mostrava como é: crua, colorida e barulhenta.

Fachada imponente e desgastada do Hospital Clínico Cirúrgico Hermanos Ameijeiras em Havana
O imponente (e desgastado) Hospital Hermanos Ameijeiras, dominando a paisagem do bairro. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)

Tomei um banho frio para espantar o calor e saí. A missão do meu primeiro dia em Havana era simples: deixar a cidade me levar.

Mulher na sacada de um prédio antigo com tijolos aparentes estendendo roupas.
A intimidade exposta nas fachadas: roupas no varal e a vida acontecendo nas alturas. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)

Do Malecón à Bodeguita: O Circuito Turístico e o Real

Caminhei pelo Malecón até Havana Vieja. O trajeto é uma aula de história onde prédios coloniais convivem com a decadência imposta pelo tempo e pelo bloqueio. Passei pela famosa Bodeguita del Medio, cheia de turistas e história, mas meu interesse estava na rua, não no mojito.

Fachada amarela e azul da famosa Bodeguita del Medio com bandeira de Cuba
La Bodeguita del Medio: parada obrigatória para turistas, mas apenas um cenário para os locais. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)

Aprendi cedo as regras. Ao tentar fotografar um quadro de Fidel na sede do Partido, fui educadamente impedido. “Segurança”, disseram. Mais à frente, a polícia abordava músicos de rua. Meu olhar brasileiro esperava truculência; vi burocracia e checagem de licenças. O Estado ali é um organizador onipresente.

A Praça que Renasceu (e as Crianças)

Era a semana do “saco cheio” (recesso escolar). Por isso, as ruas eram das crianças.

Dois meninos cubanos posando para a foto na calçada, um fazendo sinal com a mão
A juventude que encara a câmera: estilo e atitude nas calçadas de Havana. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)

Parei para almoçar numa praça em Centro Habana que, segundo me contaram, já foi um lixão. Hoje, recuperada, ela é palco da vida. Enquanto comia, vi a cena que definiu minha manhã: crianças brincando de bola, livres. Sem celulares, sem a neurose de segurança que nos assombra no Brasil. A praça não era bonita no sentido estético burguês; era bonita porque era útil, era do povo.

Trator operando em uma rua estreita cercada por tapumes de metal.
O som da reconstrução: tratores abrindo caminho entre séculos de história

Ali perto, a engenhosidade cubana em ação: homens consertavam um carro no meio-fio. Sem peças importadas, usavam a criatividade para manter a história rodando.

A “Bolsa” da Calçada e o Hotel Inglaterra

Precisei de internet e, fugindo das filas da ETECSA, recorri à rua. No Boulevard, um rapaz configurou um chip no meu celular por 25 dólares ali mesmo, na calçada. A rua também foi minha casa de câmbio: troquei dólares a 400 CUPs, bem acima da cotação oficial.

Pessoas em fila na calçada observando um caminhão azul antigo passar
A rotina de espera: filas para o comércio básico e os caminhões que movem a cidade. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)

A noite caiu e fui para o Parque Central. A música ao vivo no terraço do clássico Hotel Inglaterra transbordava para a rua. Sentei num banco, acendi um charuto e a conversa fluiu com os locais.

Fachada ornamentada do Hotel Inglaterra com táxis amarelos estacionados em frente
O clássico Hotel Inglaterra: cenário perfeito para um charuto e conversas sobre o futuro. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)

A Economia do Ovo e o Valor do Médico

Foi ali que a realidade bateu forte. O cubano tem uma consciência política afiada. Eles reclamam da escassez, sabem que o Bloqueio sufoca, mas defendem o essencial.

O choque foi mútuo. Eles me contaram, indignados, que uma bandeja de ovos custa quase um salário mínimo local. A inflação dói no prato.

Por outro lado, o espanto mudou de lado quando falei do Brasil. Ao contar que o Estado brasileiro paga mais de 2.000 dólares por um médico no programa Mais Médicos, eles ficaram abismados. O contraste era brutal: uma mão de obra humanitária que vale ouro lá fora, mas que luta para comprar o básico dentro de casa.

Voltei para o quarto pensando nessa balança. Cuba forma humanos gigantes, mas é obrigada a contar moedas (e ovos) para sobreviver.

Dois homens jogando xadrez sentados em um banco de pedra à noite
Xeque-mate na madrugada: a prova de que as ruas de Havana pertencem às pessoas. (Arquivo Pessoal – Tiago Prado/O Trovão)
© Aviso de Direitos Autorais e Uso de Imagem

Todas as fotografias e imagens apresentadas nesta publicação são de autoria exclusiva de Tiago Prado e estão protegidas pela legislação de direitos autorais. Qualquer tipo de reprodução, divulgação ou compartilhamento — seja em redes sociais, sites ou impressos — é permitido mediante a atribuição dos devidos créditos de forma visível.

Crédito obrigatório: Tiago Prado / O Trovão

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *