O primeiro som da minha chegada em Havana não foi uma salsa ou rumba. Contudo, foi um aplauso.
Eram cerca de 14h, duma quinta-feira, 11 de abril de 2024. O avião da Copa Airlines tocou o solo do Aeroporto José Martí. No instante em que paramos, aliás, os passageiros — alguns deles, cubanos voltando para casa — aplaudiram em uníssono. Então, portanto, observei que não era alívio; nesse sentido, era celebração.
Olhando as esteiras de bagagem, entendi o porquê. As malas não traziam apenas roupas, mas também caixas e caixas com a palavra “DOAÇÃO”. Todavia, aquele aplauso não era o fim de uma viagem. Era o fim de um cerco, mesmo que por um instante.
O ar que entrou na cabine quando a porta se abriu era quente, úmido, litorâneo. Basicamente, tinha o cheiro da realidade. E minha bagagem estava pesada de mitos, não de roupas.
A Burocracia da Chegada em Havana
Eu esperava tensão. Tinha na mente o interrogatório. Contudo, encontrei eficiência.
O controle sanitário (D’Viajeros) foi rápido. A imigração, surpreendentemente, moderna. O oficial, cordial mas focado, mal me olhou. Pediu o passaporte, tirou uma foto digital, comparou com a do documento e “carimbou”.
Portanto, da porta do avião até a esteira, passando por tudo: uns quinze minutos (não foi tudo isso).
Peguei minha mala. Saí para o salão de desembarque do Terminal 3, procurando um rosto. E ali, no meio daquela gente toda, vi um homem segurando uma placa simples: “Tiago”.
Naquele instante, ao caminhar livremente do controle estatal para o abraço de um desconhecido que me esperava, nasceu o tema desta viagem. A palavra que me guiaria por todos os 12 dias: LIBERDADE.
“Tudo Certo, Tudo Tranquilo”
Encontrei o motorista, Eduardo. Liguei a câmera, ainda trêmulo, e gravei meu primeiro vídeo: “E aí? Chegamos em Cuba! Estamos na ilha… Clima gostoso aqui, aeroporto. Tudo certo, tudo tranquilo”.
Eu estava falando para mim mesmo. Tentando convencer meu corpo, treinado na desconfiança, de que estava tudo bem. Enquanto isso, como se fosse um cenário montado, um almendrón (o carro clássico americano) cor-de-rosa passou lentamente atrás de mim. Cuba, em 30 segundos, já era mais real que qualquer filme.
Eduardo me cobrou os 30 dólares combinados. O carro, que na minha memória era um Lada, era um sedan antigo com uma toalha no painel e uma característica fundamental: as janelas abertas.
Então, para quebrar o gelo — o meu, não o dele —, perguntei sobre religião. Ele riu. E começou a aula, apontando pela janela, com o vento caribenho entrando no carro. “Vê ali? Assembleia de Deus. Ali, Congregação Cristã. Perto daquela mesquita, tem uma sinagoga.”
A liberdade religiosa não era um discurso; era a paisagem. Além disso, o respeito à matriz africana, com oferendas na rua, me fez sentir na Bahia.
Apertei o nó. Perguntei sobre violência. Ele foi direto, mas com uma clareza política que eu veria em todo o povo. Explicou que ali todos entendem que o turismo é vital para sobreviver ao bloqueio criminoso. A proteção ao visitante não é uma ordem; é uma consciência coletiva de sobrevivência. Minha chegada em Havana me ensinava mais em 15 minutos do que anos de mídia.
O Arrepio: O Choque ao Chegar em Centro Habana
O táxi saiu da autoestrada, seguindo a placa para “centro ciudad” (centro da cidade). E foi aí que o bicho pegou.
Os prédios. A decadência visível. As fachadas descascadas. De repente, um arrepio subiu pela minha espinha. Sejamos honestos: foi assustador.
A estética me transportou para os arredores da Estação da Luz, em São Paulo, ou uma comunidade dos anos 90. Onde eu cresci, essa paisagem é um código. Significa perigo, abandono. Meu corpo se contraiu por instinto.
No entanto, levei minutos, ali no carro, para respirar e reajustar o olhar. Eu precisei me forçar a entender. Aquilo não era o código do abandono social que eu conhecia. Era a cicatriz. A ferida aberta do Bloqueio. E, ainda assim, por fim, as ruas estavam cheias. Pessoas conversavam nas portas. Crianças brincavam. Não havia o medo. Só a vida.
Portanto, a verdadeira chegada em Havana é esta: a que desmancha seus medos.






















A Base: O Acolhimento de Rosmery
Paramos na Animas # 562. A casa que eu havia reservado. Terceiro andar. Primeiramente, uma escada estreita, íngreme. Subi com as malas, exausto. No topo, Rosmery. Minha anfitriã.
Ela não me recebeu com a formalidade de um hotel, pelo contrário, me recebeu com o calor de uma amiga. Eu estava atônito, mal conseguia falar. Então, ela me levou ao quarto. E o quarto era um refúgio.
As paredes de um azul vibrante, texturizadas. Duas camas confortáveis, frigobar, ar-condicionado, um banheiro limpo. Ou seja, não era luxo. Era cuidado.
Joguei as malas. O banho lavou o suor de 10 horas de voo e, talvez, anos de mitos. Respirei fundo. Minha chegada em Havana terminava ali, na segurança daquele quarto. O que fazer? Desabar na cama? Não.
A rua me chamava.
Na próxima sexta-feira: Havana (Parte 2). O inicio duma tarde e a primeira noite. O que vi e senti ao caminhar sozinho, por poucos minutos. Logo, fiz “amizade” com uma carioca que de repente apareceu mais uma paulistana, tudo isso logo após a minha chegada em Havana.