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Racismo estrutural no projeto de lei sobre cultura em Arapongas

Ilustração conceitual representando racismo estrutural na cultura, com figuras periféricas sendo censuradas por uma estrutura opressiva.

Racismo estrutural no projeto de lei sobre cultura em Arapongas

A Câmara Municipal de Arapongas está prestes a votar um projeto de lei que proíbe a contratação de shows, artistas e eventos públicos que envolvam “apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas”. No papel, a medida parece uma tentativa legítima de proteger crianças e adolescentes. No entanto, uma análise detalhada revela um problema muito maior: essa proposta reforça o racismo estrutural ao tentar marginalizar expressões culturais periféricas e limitar quem pode se apresentar nos espaços públicos.

O texto do projeto não define de forma clara o que será considerado “apologia ao crime” ou “uso de drogas”, deixando a interpretação aberta e perigosa, o que abre margem para um viés seletivo e preconceituoso na aplicação da lei. Quem decide o que pode ser considerado influência criminosa? Por que determinados gêneros musicais sempre são os alvos dessas proibições?


A Criminalização da Cultura Negra e Periférica

O Brasil tem um histórico de marginalização e perseguição de manifestações culturais negras e periféricas, e este projeto de lei segue exatamente esse padrão. O rap e o funk são frequentemente classificados como “apologia ao crime”, enquanto outros gêneros musicais que exaltam ostentação, consumo de álcool e relações abusivas passam ilesos por esse tipo de regulação.

📌 Rap e funk refletem realidades sociais e trazem em suas letras histórias sobre desigualdade, violência e dificuldades da vida na periferia. Não é apologia ao crime; é denúncia de um sistema que exclui e oprime.

📌 Enquanto isso, shows sertanejos, onde menores de idade têm fácil acesso a bebidas alcoólicas e onde muitas músicas glorificam comportamentos autodestrutivos, continuam intocáveis.

📌 O Estado historicamente decide qual cultura pode ser aceita e qual deve ser censurada, e esse projeto apenas reforça essa lógica elitista e higienista.


Um Sistema Que Escolhe Quem Pode Ser Ouvido

Este projeto não é apenas uma tentativa de regular eventos culturais, mas sim um mecanismo de exclusão, onde determinadas formas de expressão artística são controladas e eliminadas do espaço público.

📌 A Prefeitura, Guarda Municipal e Polícia Militar poderão fiscalizar e multar artistas e eventos, permitindo que agentes do Estado atuem como curadores culturais, decidindo o que pode ser apresentado e o que será proibido.

📌 Denúncias poderão ser feitas sem qualquer critério técnico, dando margem para perseguição seletiva. Basta que um artista incomode determinados setores da sociedade para ser eliminado do espaço cultural.

📌 Esse modelo de censura institucional não protege crianças e adolescentes; ele apenas perpetua uma estrutura que silencia determinadas vozes e privilegia outras.


A Cultura Deve Ser Incentivada, Não Censurada

Se a preocupação fosse genuína, os vereadores deveriam estar discutindo formas de apoiar a cultura popular e periférica, garantindo que todos os artistas tenham espaço e visibilidade. Ao invés de proibição e repressão, o município deveria investir em:

Fomento a eventos culturais acessíveis para todos os públicos.
Criação de projetos que incentivem a diversidade artística.
Espaços públicos para manifestações culturais livres e democráticas.

A arte é uma das maiores ferramentas de transformação social, e barrar manifestações culturais sob justificativas moralistas e seletivas não é uma solução, é um retrocesso.

Este projeto de lei não combate o crime, não protege crianças e não melhora a sociedade. Ele apenas reforça racismo estrutural, marginalização da cultura negra e controle estatal sobre quem pode ou não ser ouvido.

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