A noite em Havana é mistério, mas o dia é um livro aberto.

Acordei por volta das 09h30 na Calle Animas. Da sacada, a vista de Centro Habana não escondia nada: a grandiosidade do Hospital Hermanos Ameijeiras ao fundo contrastava com as ruas desgastadas e vivas lá embaixo. Sem a maquiagem da escuridão, a cidade se mostrava como é: crua, colorida e barulhenta.

Tomei um banho frio para espantar o calor e saí. A missão do meu primeiro dia em Havana era simples: deixar a cidade me levar.

Do Malecón à Bodeguita: O Circuito Turístico e o Real
Caminhei pelo Malecón até Havana Vieja. O trajeto é uma aula de história onde prédios coloniais convivem com a decadência imposta pelo tempo e pelo bloqueio. Passei pela famosa Bodeguita del Medio, cheia de turistas e história, mas meu interesse estava na rua, não no mojito.

Aprendi cedo as regras. Ao tentar fotografar um quadro de Fidel na sede do Partido, fui educadamente impedido. “Segurança”, disseram. Mais à frente, a polícia abordava músicos de rua. Meu olhar brasileiro esperava truculência; vi burocracia e checagem de licenças. O Estado ali é um organizador onipresente.
A Praça que Renasceu (e as Crianças)
Era a semana do “saco cheio” (recesso escolar). Por isso, as ruas eram das crianças.

Parei para almoçar numa praça em Centro Habana que, segundo me contaram, já foi um lixão. Hoje, recuperada, ela é palco da vida. Enquanto comia, vi a cena que definiu minha manhã: crianças brincando de bola, livres. Sem celulares, sem a neurose de segurança que nos assombra no Brasil. A praça não era bonita no sentido estético burguês; era bonita porque era útil, era do povo.

Ali perto, a engenhosidade cubana em ação: homens consertavam um carro no meio-fio. Sem peças importadas, usavam a criatividade para manter a história rodando.
A “Bolsa” da Calçada e o Hotel Inglaterra
Precisei de internet e, fugindo das filas da ETECSA, recorri à rua. No Boulevard, um rapaz configurou um chip no meu celular por 25 dólares ali mesmo, na calçada. A rua também foi minha casa de câmbio: troquei dólares a 400 CUPs, bem acima da cotação oficial.

A noite caiu e fui para o Parque Central. A música ao vivo no terraço do clássico Hotel Inglaterra transbordava para a rua. Sentei num banco, acendi um charuto e a conversa fluiu com os locais.

A Economia do Ovo e o Valor do Médico
Foi ali que a realidade bateu forte. O cubano tem uma consciência política afiada. Eles reclamam da escassez, sabem que o Bloqueio sufoca, mas defendem o essencial.
O choque foi mútuo. Eles me contaram, indignados, que uma bandeja de ovos custa quase um salário mínimo local. A inflação dói no prato.
Por outro lado, o espanto mudou de lado quando falei do Brasil. Ao contar que o Estado brasileiro paga mais de 2.000 dólares por um médico no programa Mais Médicos, eles ficaram abismados. O contraste era brutal: uma mão de obra humanitária que vale ouro lá fora, mas que luta para comprar o básico dentro de casa.
Voltei para o quarto pensando nessa balança. Cuba forma humanos gigantes, mas é obrigada a contar moedas (e ovos) para sobreviver.

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