O banho lavou o suor de dez horas de viagem, mas não levou embora a eletricidade do corpo. Eram quase 17h quando me vi limpo, dentro do quarto azul na Calle Animas. A luz dourada do fim de tarde batia nos prédios descascados de Centro Habana. A minha primeira noite em Havana estava prestes a começar, e a rua não me convidava; ela me intimava.
Chegada em Havana: O Som dos Aplausos e o Choque da Rua“Vai pra Cuba!” E Eu Fui
: A Primeira Noite em Havana e o Breu que Não Assusta
Imediatamente, decidi não esperar. Precisava sentir o asfalto.

O Encontro e a Missão da Mala

Saí sozinho para comprar água (350 CUP por duas garrafas). Contudo, ao retornar para a casa de Rosmery, o roteiro solitário mudou. Na porta, encontrei Maria Gabriela. Carioca, na época doutoranda na UFRJ, com aquele olhar misto de cansaço e curiosidade de quem também buscava conhecer um pouco mais a noite de Havana.
Caminhamos pelo Paseo del Prado, aquela avenida que respira história, observando os leões de bronze que guardam o caminho.
Logo depois, fomos “batizados”. Um jinetero (rapaz que vive de comissões e interação com turistas) nos abordou. Ao contrário do que se pensa, não foi agressivo. Ele veio com lábia, sorriso no rosto, tentando vender charutos ou indicar restaurantes. A foto que tiramos registra bem o momento: Maria rindo, ele gesticulando. Era o comércio da sobrevivência, não o da violência.

O Jantar no Planetário e o Erro dos Milionários
A fome, naturalmente, apareceu. Encontramos um “café” simpático, que funcionava nas dependências externas do Planetário de Havana. Sentamos ali, na calçada, vendo a vida passar.

Pedi um sanduíche simples. O preço: 300 CUP. Foi ali que o “capitalista” dentro de mim passou vergonha. Por conseguinte, puxei três notas de 1.000 CUP e entreguei ao atendente, crente que estava pagando o justo. Maria arregalou os olhos e segurou meu braço:
— Tiago, você tá louco? Uma nota paga e sobra muito troco!
Guardei o dinheiro, rindo de nervoso. De fato, eu precisava reaprender a matemática da ilha. Na minha primeira noite em Havana, entendi que andar com maços de dinheiro no bolso não é sinal de riqueza, mas de inflação.
Don Julio e a Vida na Praça

A noite caiu. E com ela, veio o breu das ruas sem luz. Entretanto, guiados pelo som, chegamos à Rua Brasil (Teniente Rey) e encontramos o Bar Don Julio.

Coincidentemente, o lugar era um refúgio de vida. Lá, conhecemos Leticia, outra brasileira, e a noite virou uma celebração improvisada. Música ao vivo, mojitos, conversas sobre a vida. Não achei caro, embora fosse turístico.

Posteriormente, decidimos caminhar mais. Fomos parar numa espécie de galeria a céu aberto — provavelmente a Alameda de Paula ou os arredores da Plaza Vieja. Um passeio público onde os cubanos se reúnem para conversar. Jovens, casais, famílias. Aliás, a falta de internet cria isso: as pessoas se olham, se tocam, ocupam o espaço público.

O Mito da Insegurança na Primeira Noite em Havana

O retorno para casa foi a lição final. Devido ao bloqueio e à crise energética, as ruas são túneis de escuridão. Para mim, alguém forjado nas diversidades das quebradas brasileira, o escuro é código de perigo. Meu corpo ficou tenso.

Porém, o que veio da escuridão foi música. Salsa, reggaeton, risadas. Ninguém me parou por ser “negro” cabeludo. Ninguém me parou por ser turista. Havia policiamento, mas discreto.

Finalmente, voltamos de ciclotáxi (1.000 CUP), sentindo o vento da madrugada. Cheguei ao quarto e pensei: estou num país “perigoso”, andei no escuro, errei o dinheiro e estou inteiro.

A minha primeira noite em Havana provou que, lá, a escuridão é apenas falta de luz; no Brasil, é falta de paz e políticas públicas sociais, que incluem a presença do Estado com educação, cultura, lazer, não com policiamento ostensivo.
Na próxima sexta-feira: Havana (Parte 3). O dia amanhece e as ruas falam. A arquitetura, a política visual e o cotidiano à luz do sol.