Na audiência pública sobre ‘Pessoas em situação de rua’, realizada no dia 30 de setembro, na Câmara de Vereadores de Arapongas, um discurso em especial chama atenção: o do vereador de Apucarana, Guilherme Livote. Com ares de “sinceridade brutal”, ele dividiu a população em situação de rua em três categorias: a vulnerável, o “drogado” e o “criminoso”. Cada um, segundo ele, teria um destino: assistência, internação ou cadeia.
Essa “classificação” revela mais do que preconceito – mostra um projeto político. Quando o parlamentar fala em “pessoas corretas que não admitem vagabundagem”, ele reforça a ideia de que quem não se encaixa no padrão de trabalhador ideal deve ser expulso ou preso. Em outras palavras: ou você se adapta à lógica da exploração, ou é descartado como lixo humano.
O problema é que a fala não vem isolada. Ecoa um pensamento antigo, mas cada vez mais presente: transformar problemas sociais em casos de polícia. Pessoas em situação de rua não “escolhem” viver assim. São vítimas de um sistema que concentra riqueza, nega moradia e precariza o trabalho. Mas, para certos políticos, é mais fácil gritar “cana neles” do que discutir política habitacional, saúde mental e combate às drogas sem moralismo.
A fala de Livote é perigosa porque cria um ambiente propício à violência contra quem já sofre. Ao colocar a polícia como resposta para a miséria, ele abre espaço para perseguições, abordagens abusivas e até mortes.
A sociedade precisa decidir: queremos políticas públicas que cuidem das pessoas ou discursos que transformem pobreza em crime? Enquanto vereadores fizerem palanque com esse tipo de fala, a rua continuará sendo o reflexo mais cruel da desigualdade brasileira.