A política que nega leite e distribui desprezo
A frase escancarada em tom de deboche por um vereador da cidade — contra a distribuição de leite para mães sem condições de amamentar — não é apenas desumana. É um retrato fiel de uma lógica política que odeia os pobres, odeia a periferia, odeia quem precisa do Estado para viver.
Esse tipo de posicionamento não é isolado. Vem de quem já apresentou projeto para proibir a doação de alimentos a pessoas em situação de rua, como se a fome fosse um problema a ser varrido da paisagem urbana e não da realidade social. Vem de quem assinou lei de censura à cultura periférica, como se o tambor, o microfone e o grafite fossem armas e não expressões legítimas de resistência.
Agora, o alvo é uma mãe que, por motivo de saúde ou ausência de condições, não consegue amamentar e não tem como pagar pelo leite infantil — muitas vezes, uma lata custa mais que um dia inteiro de trabalho. Para esse tipo de político, essa mulher não precisa de apoio, mas de julgamento. Não precisa de dignidade, mas de silêncio.
O Estado como carrasco
Há quem defenda “Estado mínimo” apenas para pobre. Porque na hora de financiar o agronegócio, bancar isenção para milionários ou garantir privilégios para os mesmos de sempre, o discurso se esvazia. O problema, na verdade, não é o gasto. É com quem se gasta.
Não existe desculpa técnica que justifique negar o básico para quem gera, cuida e protege a vida. Mas essa visão do mundo, que vem de quem nunca precisou contar moedas ou saber o preço do transporte público, não vê pessoas. Vê números. Vê incômodos.
É preciso nomear o horror, mesmo sem dizer nomes
Sabemos quem é. Ele está na tribuna, na foto oficial, nas comissões que deveriam proteger os direitos, mas fazem exatamente o contrário. Usa terno, fala com arrogância e despreza cada pessoa que não se encaixa em sua cartilha higienista e excludente.
E justamente por isso, é nosso dever escancarar: negar leite infantil a uma criança é decretar sentença de fome. É um ataque direto ao futuro, à dignidade, à humanidade. E quem sustenta esse tipo de discurso não deve ser tratado com normalidade. Deve ser desmascarado e combatido.