O que era para ser um momento de escuta democrática virou retrato escancarado do que é o racismo estrutural em ação — ao vivo, no plenário, com microfone aberto e tudo.
Durante a votação em primeiro turno do Projeto de Lei nº 31/2025, conhecido como PL da Censura, duas jovens fizeram uso da palavra, de forma legítima e prevista no regimento, para expor as inconstitucionalidades e os riscos do projeto. Elas foram firmes, técnicas, didáticas. Fizeram o que o parlamento deveria valorizar: estimular o debate qualificado. Mas ao invés de acolher o diálogo, o autor do projeto subiu à tribuna para se dizer “ofendido”.
Até aí, tudo dentro da rotina política. O problema é que, ao tentar se defender da acusação de racismo estrutural embasada por análises acadêmicas sérias, o vereador proferiu a clássica e lendária frase:
“EU COMEÇO A MINHA FALA FALANDO SOBRE ISSO.
MEU ASSESSOR AQUI NA CÂMARA É PRETO…”
Não deu tempo de terminar. A plateia, perplexa, reagiu com espanto e indignação.
A frase não apenas não livra ninguém da acusação — ela confirma, aprofunda e escancara. Repetir que se tem uma pessoa negra no círculo pessoal como prova de “não racismo” é uma das formas mais comuns de reproduzir o próprio racismo. Reduz o sujeito negro a um álibi, a um atestado moral, a um selo de isenção. É o racismo instrumentalizando o corpo preto como escudo simbólico.
E é justamente isso que os estudos acadêmicos chamam de racismo estrutural — o conjunto de práticas e discursos que, mesmo sem a intenção explícita de ofender, reproduzem e naturalizam a exclusão, a desigualdade e a invisibilização da população negra.
Quando dissemos que o PL da Censura é racista, não foi com base em “opinião pessoal”. Foi sustentado em análises como vários pesquisadores sérios, que mostram como estruturas legais, políticas e administrativas, mesmo disfarçadas de neutralidade, podem reproduzir exclusão racial. O projeto tenta silenciar a cultura periférica — que é majoritariamente negra. Isso é racismo estrutural. E ponto.
Dizer que a lei não é racista porque tem um negro do lado é o mesmo que dizer que a ditadura não foi violenta porque deixou o Chico Buarque cantar.
O que se viu no plenário foi a expressão máxima da ignorância sobre o que é o racismo no Brasil. E o silêncio cúmplice de parte da Câmara diante de uma fala tão simbólica é, também, uma escolha política.
Nesta semana, o Blog do Tiago Prado seguirá publicando uma série de textos explicando o que é racismo estrutural, censura cultural e higienismo legislativo. Porque precisamos, sim, seguir explicando o óbvio — até que o óbvio pareça absurdo.