No Brasil, o 13 de Maio é conhecido como o dia da assinatura da Lei Áurea, em 1888. Um evento tratado nos livros de história como o “fim da escravidão”. Mas a realidade é que essa data carrega mais farsa do que liberdade. Não houve reparação, não houve inclusão. Houve apenas o abandono de um povo.
Assinada por uma princesa que a elite branca insistiu em pintar como “redentora”, a Lei Áurea foi um documento de apenas dois artigos. Nenhuma linha sobre indenização, moradia, acesso à terra, educação ou trabalho digno para os mais de 4 milhões de pessoas escravizadas libertas. O Brasil simplesmente lavou as mãos. A abolição sem cidadania foi uma armadilha histórica que mantém seus tentáculos até hoje.
Ao mesmo tempo, o 13 de Maio também é celebrado como o Dia do Preto Velho, figura presente nas religiões de matriz africana como Umbanda e Candomblé. Preto Velho é arquétipo da sabedoria ancestral, da paciência firme, da resistência espiritual e da cura. Ele representa os que sobreviveram à escravidão e seguiram ensinando, mesmo feridos, mesmo esquecidos pelo Estado.
A coincidência dessas duas datas não é por acaso: ela simboliza o contraste entre a narrativa oficial e a vivência do povo preto. Enquanto o Estado assinava um papel vazio, nas senzalas e terreiros nascia um conhecimento profundo, forjado na dor, mas transbordante de dignidade. O Preto Velho é memória viva. É quem ensina que a luta não terminou com a abolição de fachada, porque liberdade de verdade se conquista com justiça social.
É urgente rever o 13 de Maio. Não como uma data de comemoração, mas como marco da continuidade da exclusão. O racismo estrutural, os genocídios da juventude preta, o encarceramento em massa, a falta de acesso à terra e à educação são heranças diretas daquele projeto inacabado. A abolição não foi um fim — foi um recomeço desigual.
Por isso, cada 13 de Maio precisa ser um dia de denúncia e reflexão. Precisamos descolonizar o currículo escolar, combater o mito da “democracia racial” e fortalecer as lutas negras por reparação histórica. Isso passa por políticas públicas, mas também por uma mudança na consciência coletiva: reconhecer que não houve libertação, apenas uma troca de correntes visíveis por invisíveis.
Ao celebrar o Dia do Preto Velho, resgatamos essa força ancestral que transforma dor em sabedoria e resistência em cura. Os Pretos Velhos e Velhas nos ensinam que não basta sobreviver — é preciso viver com dignidade, memória e axé.
Liberdade não é favor, é direito.
E só há futuro com justiça para o povo preto.