Domingo, 11 de maio. Dia das Mães. Aquela data em que as autoridades políticas — principalmente homens, brancos, engravatados e ungidos com a graça da mentira — posam sorridentes ao lado das próprias mães enquanto empilham cadáveres de mães dos outros. No feed: flor. No gabinete: farsa.
Comecemos por Arapongas, onde o vereador legendário decidiu que cultura de periferia é crime, não criação. Propôs uma lei pra criminalizar o que chama de “apologia ao crime” em manifestações culturais. Tradução: ele quer censurar funk, rap, slam, grafite, qualquer coisa que venha da favela com microfone na mão e denúncia na garganta.
É o tipo de política que acredita que resolver desigualdade é tirar o som da laje, não o fuzil da mão do Estado. Em vez de ouvir a periferia, querem calá-la — ou silenciá-la na bala. A cultura virou inimiga pública porque ousou ser voz onde o sistema quer só silêncio.
Enquanto o herdeiro joga seu teatrinho moralista, na cidade dos pássaros, o deputado-mirim Nicolas Ferreira, influencer gospel do apocalipse seletivo, divulgou um vídeo falso tentando colar a culpa do escândalo do INSS no governo Lula.
Detalhe que as fraudes começaram em 2019, no paraíso liberal do cartão corporativo infinito. Mas a lógica do bolsonarismo é simples: não importa quando a bomba foi plantada — se estourou no colo do inimigo, é dele a culpa. E assim, a mentira vai viralizando entre “mães de bem” que acham que fake news é versículo – no zap, diga-se de passagem.
Mas tem mais. Em Londrina, aconteceu uma audiência pública, convocada por deputados estaduais do Paraná, sobre violência policial. Um espaço simbólico onde mães de vítimas do Estado foram expor sua dor onde muitos acham que “excesso” é quando a bala não acerta a testa.
Essas mães não ganham buquê. Ganham caixão. Não recebem homenagens — recebem “justificativas”. “Estava no lugar errado”, dizem. Mas nunca explicam por que o lugar errado é sempre preto, pobre e periférico. A política de segurança virou política de extermínio com aplauso institucional.
E falando em mães mortas, que tal Gaza? Enquanto aqui se distribuem flores e mensagens açucaradas no WhatsApp, lá 34 mães morrem por dia — e as que sobrevivem enterram filhos sem nome. São civis bombardeadas por drones, tratados como “alvos táticos” por uma democracia armada até os dentes.
As mesmas vozes que choram pela “vida” aqui, justificam genocídio lá. “Conflito complexo”, dizem, como se perder o filho sob escombros precisasse de nota diplomática. A hipocrisia internacional é tão grande quanto o silêncio dos que se dizem pró-vida, desde que a vida não seja palestina.
No meio disso tudo, o Brasil vai fingindo que é civilizado. Censura o som do morro, espalha fake news como se fosse salvação, encobre violência policial com capa de mérito e naturaliza genocídio como política externa.
E quando questionados, ainda perguntam: “Não é Dia das Mães? Por que tanta crítica?”. Porque aqui, meus caros, o presente pra muitas mães foi enterro. Foi despejo. Foi censura. Foi fake. Foi tiro.
E enquanto isso, o povo da favela, da quebrada, de Gaza, de Arapongas, de Londrina, do INSS, da escola com som alto, das vozes baixas, da dor crônica, segue fazendo o que pode pra sobreviver — com arte, com grito, com memória.
Neste Dia das Mães, oferecemos a elas o que o Estado se recusa a dar: verdade.
Porque flor murcha. Mas a injustiça, essa fede.