13 de maio de 1888. Um pedaço de papel é assinado, e a elite branca respira aliviada: “está resolvido!”. Princesa Isabel vira santa e a Lei Áurea entra pros livros como sinônimo de bondade. Mas ninguém fala do 15 de maio. Nem do 14, nem de dia algum. O que aconteceu com quem, até anteontem, era tratado como coisa?
Aconteceu o abandono.
Libertaram, mas não acolheram.
Soltaram, mas não repararam.
Devolveram a liberdade como quem devolve um objeto perdido: “toma aí, vê o que faz com isso”.
No dia seguinte à falsa abolição, milhões de pretos e pretas estavam nas ruas. Sem terra, sem trabalho, sem casa, sem sobrenome, sem um centavo — e sem o mínimo interesse do Estado em resolver essa conta. Os ex-senhores mantiveram as fazendas, os cargos, as igrejas e as medalhas. Os ex-escravizados herdaram a fome, a culpa e a marginalização.
A reparação? Nunca veio.
A Europa, que encheu os bolsos com o tráfico transatlântico, fingiu que não é com ela. A Igreja Católica demorou séculos pra soltar um “foi mal”. E parte dos protestantes que vieram dos EUA, principalmente os que cruzaram o Atlântico com racismo debaixo do braço, ajudaram a manter o preconceito em nome de Deus.
E o Brasil? Transformou o racismo em estrutura.
A senzala virou favela.
O chicote virou cassetete.
O pelourinho virou sistema prisional.
E a casa-grande? Virou condomínio com portaria blindada.
De 1888 pra cá, o povo preto continua esperando:
– uma educação de verdade,
– um sistema de justiça que não mate,
– um mercado de trabalho que não exclua,
– uma história que reconheça sua luta.
Mas a única herança que veio mesmo foi o mito da democracia racial — essa grande farsa tropical.
Hoje é 15 de maio.
135 anos se passaram e a pergunta segue cravada na pele do Brasil:
cadê a reparação?